sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Sobre ser mãe longe dos pais

O que tem de mais ser mãe longe da família? Algumas pessoas poderiam me perguntar, afinal há tantas mulheres que não têm família e são mães, não é?

É, observação pertinente e totalmente verdadeira, mas não é a minha realidade. Eu tenho mãe, pai e irmãos... só que estão há um oceano de distância. Claro que foi uma opção minha, mudar de país, assumir outra cultura como minha. Isso não invalida entretanto a falta que minha família me faz.

Costumo dizer que a maternidade é um momento único na vida de uma mulher, um momento mágico, mas é também um momento de inseguranças, de medos, de muito cansaço e ninguém melhor do que nossa mãe para nos apoiar e nos acalmar. Quando há uma boa relação entre mãe e filha, penso que não há mulher que não queira a mãe por perto neste momento; afinal, nossa mãe já passou pelos mesmos medos e inseguranças conosco e estamos cá, vivas e de boa saúde. Comigo não foi diferente. 

Eu sempre quis trazer meus pais para passear em Portugal. Meu pai não gosta de sair da sua rotina, do seu conforto, nunca gostou. Minha mãe pelo contrário sempre gostou de sair, viajar. Mas nunca tinha viajado para o exterior, muito menos sozinha. Infelizmente suportar os custos de uma viagem para a Europa não é para qualquer brasileiro e quando eu quis e podia pagar a viagem a minha mãe não podia vir. Coisas da vida, dizia eu! Até brincava com ela que ela viria quando eu engravidasse... e assim foi! Quer dizer, não foi bem bem assim. Na verdade ela quase que não veio, porque depois de fazer passaporte e tudo, começou a crise no Brasil e começaram a atrasar nos pagamentos da aposentadoria do meu pai, o que atrapalhou os planos todos. Sem que eu pudesse arcar com as despesas da viagem e meu pai também não, já me tinha convencido que não poderia partilhar o meu momento mágico com a minha mãe. Foi quando uma prima minha, sobrinha do meu pai a quem eu não via desde criança até que ela veio a Espanha e deu cá um salto só para me ver em 2014, disse que oferecia a viagem à minha mãe. Ainda não sei se algum dia serei capaz de lhe agradecer como deve ser...

Graças à minha prima Fátima, minha mãe esteve comigo no pré e no pós parto. Veio um mês antes da data prevista para o parto e pôde tocar na minha barriga, falar com a Pipoca e até me acompanhou nas aulas de preparação para a parentalidade. Ajudou-me com as decorações finais (que foram poucas, pois a Pipoca não tinha um quartinho para ela) e foi à última ecografia... consegui dividir com a minha mãe um poquinho da minha gravidez. No pós parto ajudou-me como  toda a mãe ajuda... quer dizer, um pouco diferente! Lembro que no Brasil por norma as avós dão os primeiros banhos, cuidam do umbigo, trocam fraldas... por cá aprendemos tudo isso nas aulas e acabamos por ser nós, pais a fazer. Claro que ela  também trocou fraldas, deu banho, ninou... e muitas vezes ficava com a Pipoca para eu e o pai resolvermos alguns assuntos na rua. Foram dois meses de avó na nossa casa.

Até aí, tendo cá a minha mãe no parto e pós parto, nada diferente, então porque este post? Porque eu quero mesmo falar é sobre ser mãe longe dos pais, não só no momento de dar à luz, mas principalmente depois disto. Vou ser sincera: se eu voltasse no  tempo sabendo o que eu sei hoje, não pediria a minha mãe para vir na altura do parto. Mesmo sendo muito grata e posso dizer que adorei ter a minha mãe ao meu lado, tal como já relatei, diria a ela para não vir.

O quê? Eu disse mesmo isso?

Sim, eu disse. Disse porque não posso tê-la sempre e podendo escolher, preferia que ela viesse mais tarde. Da experiência toda que tive, acho que precisei mais da ajuda dela depois e sinto que preciso muito mais agora, por várias as razões...

Primeiro porque minha mãe passou sozinha na minha casa os dias que estive no hospital, inclusive o aniversário dela que foi um dia depois do nascimento da Pipopa (ainda tive esperanças que ela esperasse para ser o presente da vovó). Depois, o pós parto é uma fase em que o bebé come, dorme e suja fraldas, ainda não interage. Claro que ter alguém para ajudar e ficar com o bebé para dormirmos por exemplo, é cinco estrelas, mas se pudesse escolher, por ela e pela Pipoca, acho que seria mais "gostoso" quando ela começasse a sorrir e a interagir. E o motivo principal: quando a Pipoca começou a ficar mais tempo acordada e já se mexia muito, já rolava e "exigia" atenção foi quando me senti mais cansada, mais sozinha. Senti falta de alguém que ficasse com ela nem que fosse meia hora para eu saborear uma refeição quente, um banho demorado. O pai estava trabalhando e só depois que ele chegava eu conseguia encostar um pouco... Senti falta de alguém que ficasse com ela no colo quando ela não arrotava depois das mamadas, porque se a deitasse ela vomitava. Quantas vezes dormi sentada com ela ao colo! E quando ela ia crescendo, sentia vontade de dividir os seus sorrisos, os seus momentos de desenvolvimento... Quando chegou a altura de voltar ao trabalho, quantas vezes desejei ter a minha mãe perto para ela ficar pelo menos mais uns dias em casa... ia adorar que ela ficasse com a avó e adiar um bocadinho a creche...

Agora entrando a fundo no assunto, não se trata apenas de precisar de ajuda com a Pipoca. Trata-se sobretudo de apoio emocional. É muito diferente termos por perto a sogra e a cunhada de ter a mãe e a irmã, por exemplo, por melhor que seja a relação, mãe é mãe e irmã é irmã...

Ser mãe longe dos pais é difícil porque não podemos partilhar os momentos, sejam bons ou ruins. Fico imaginando, se eles estivessem perto, no domingo irmos almoçar todos, ela brincar com os outros primos como brinca com os daqui. Entristece-me saber que ela não terá muitas lembranças de ir brincar na casa da avó, como eu tenho. Na verdade ela terá poucas lembranças dos avós maternos, serão lembranças das poucas vezes que poderemos lá ir e das raras que eles poderão (ou não) vir aqui.

É difícil não ter um abraço materno a confortar-nos a alma quando estamos naquele estado de cansaço que só conseguimos chorar.

É difícil não vê-la pedir a "bença" (bênção) aos avós como eu até hoje faço, acompanhada de um aperto de mão e um beijinho...

É difícil ter a cria doente e faltar ao trabalho mesmo sem poder, porque os avós estão longe e não há ninguém para socorrer... no nosso caso, infelizmente nem os avós de cá podem.

É difícil mandar um vídeo ou foto e ter como resposta a palavra saudade...

É difícil querer partilhar o desenvolvimento da Pipoca, tal como os primeiros dentes, os primeiros passos, as primeiras palavras e não poder. Enviamos fotografias, vídeos, mas não é a mesma coisa... nada como o ao vivo e a cores.

É difícil ver fotos do "resto" da família reunido principalmente quando alguém faz aniversário, justamente porque a única coisa que dá para dizer é saudade.

É difícil rever as fotos das nossas férias, do vovô fazer de cavalinho aos saltos com ela às costas e saber que aquele momento foi único...

É difícil quando somos nós a ficar doentes e não temos a nossa mãe para fazer aquela canja ou aquele mingau de fubá que só mães e avós sabem fazer para recuperarmos as forças.


É difícil passar por um problema e não querer contar a eles, seja por telefone ou Internet, porque não queremos deixá-los preocupados...

É difícil quando sabemos que alguém está doente e não podemos estar lá para dar um miminho...

É difícil quando acontecem catástrofes que os atingem (enchentes por exemplo) e não podemos ajudar a reconstruir...

É difícil dizer "este ano não consigo ir aí", quando no fundo do meu coração tudo que gostaria era entrar no primeiro avião que fosse para lá...

É difícil ter festa do dia dos avós, lembranças da creche e não poder contar com a presença deles, de ter que guardar a lembrança até um dia...

É difícil...

É mesmo muito difícil ser mãe longe dos pais... é difícil ser filho longe dos pais. Crescemos, amadurecemos, aprendemos a nos virar e caminhar pelas próprias pernas, mas não aprendemos a não sentir saudades... não aprendemos a conviver com a dor que vai sempre estar lá, uns dias mais ativa do que outros, mas vai sempre existir.

No fundo acho que o mais difícil de ser mãe longe dos pais não é a falta que eles me fazem a mim... é um sentimento de egoísmo pela escolha que fiz de viver longe, de culpa por negar a eles ver a neta crescer e de poderem dar os miminhos todos que só os avós sabem dar e de negar à minha Pipoca a delícia que é crescer com esses miminhos... uma culpa que vou carregar para o resto da minha vida...

Eu só tive avós maternos e dava tudo para ter conhecido os meus avós paternos, mas a vida não quis assim e eles se foram muito antes dos meus pais se conhecerem. Por isso custa-me tanto negar esse contato tanto a eles como à Pipoca... porque eles estão lá! Claro que vou fazer de tudo para lá irmos sempre que possível, mas ver uma vez a cada dois anos, ou que seja uma vez por ano não tem nada a ver... Ela vai sentir a delícia que é passar férias na casa dos avós, mas nunca vai saber o que é tê-los sempre por perto...

Ps.: Avós portugueses, não fiquem com ciúmes, sei que ela terá os vossos miminhos todos, mas podia ter mais... ;)










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