Hoje venho aqui falar de um assunto muito delicado: bagunça. Yeahhh!
Só que não! Desde quando bagunça é assunto delicado, né!
Então vamos lá:
Acredita, eu não!
Enquanto a minha casa ia ficando assim eu estava sentada em frente ao meu computador assistindo a uma oficina de edição de vídeos. A Pipoca e a prima passaram a tarde toda a brincar... e a bagunçar! Até pintura na cara com tinta guache teve.
Penso que muitas mães e pais também, iriam surtar. É muito fácil perder o controle e começar a gritar e brigar numa hora destas.
Mas, qual será o meu segredo?
Nenhum! Eu não tenho segredo nenhum, mas pode ter a certeza que não é apenas uma questão de ter paciência. É principalmente uma questão de empatia, autocontrole e autoconhecimento.
Como assim?
No meu modo de ver, a empatia permite-me ver e aceitar o que vai na cabeça das crianças. Enquanto brincam estão demasiado concentradas e envolvidas na brincadeira, não tem aquela perceção de que depois terão que arrumar, mesmo que tenham não pensam nisto. Crianças vivem o momento, distraem-se facilmente, são espontâneas e autênticas e quanto mais cedo aceitarmos estas características, mais cedo deixamos de sofrer com as atitudes e ações delas. Por isso mesmo precisamos de ter autocontrole, para não ficarmos zangadas e frustradas por encontrar uma casa assim e evitarmos gritar e brigar.
Por isso mesmo precisamos também de autoconhecermo-nos. O autoconhecimento permite-me conhecer os meus limites, lidar com as minhas próprias reações e não sofrer ou pelo menos não surtar diante de várias situações. Conhecer-me permite-me colocar-me no lugar dela, lembrando-me de como é ser criança. Às vezes penso repreendê-la por saltar no sofá ou subir num móvel da casa onde ela arrisca-se a cair e magoar-se a sério, mas depois coloco-me no lugar dela e penso na minha própria infância. Ela mora num apartamento, eu morava numa casa com um quintal enorme, a casa da minha avó tinha um quintal enorme cheio de árvores, carros velhos, pneus, galinhas, porcos. O que a minha Pipoca tem? Nada perto do que eu tive. Ao lembrar-me da minha infância reencontro a minha criança interior e consigo mais facilmente lidar com a Pipoca.
Neste dia da bagunça, quando as duas já estavam pintadas e mais calmas, pedi que arrumassem pelo menos os papeis e canetas que estavam espalhadas, explicando a razão pela qual eu achava que deveriam arrumar: porque se pisassem poderiam escorregar e machucar e não porque "eu estava mandando". Elas entenderam e cooperaram, claro que apanhando apenas o que pedi.
Como as duas eram tinha pura, foram lavar o rosto na casa de banho, que também virou tinha pura! Levantei-me, limpei-lhes o rosto e pedi para arrumarem as tintas e alguns bonecos e depois coloquei-as na banheira. Enquanto brincavam no banho eu e minha paciência arrumamos o resto dos brinquedos.
Depois do banho ficaram a ver o filme Frozen II enquanto eu fazia o lanche. Nem um único berro, nem choro, nem pontapés de raiva. Cooperação foi o que tive depois do caos. Mas, antes de qualquer coisa, eu tive que me controlar. Partiu de mim não gritar, não brigar ou ficar no ouvido delas igual uma maritaca na fruteira. Eu poderia ter levantado e dito: "não tirem isso do lugar", "arrumem aquilo", "olha que depois vão ter que arrumar tudo"... "parem já de fazer isso e vão arrumar aquilo primeiro", "se não arrumarem já não brincam", ou "não brincam com isto enquanto não arrumarem aquilo"... Poderia ainda ameaçar: "se não arrumar a prima já não vem cá à casa".
Claro que poderia! Mas o que eu ganharia com isso?
Choro, grito, raiva. Ate poderiam começar a arrumar, mas iam distrair-se e ficar tudo por arrumar, como já aconteceu inúmeras vezes. Aí eu ia levantar outra vez a voz porque ao invés de arrumar estão a brincar e o ciclo de irritação continuaria, cada vez mais intenso e eu chegaria num ponto de explodir.
Tem que partir de mim, que sou adulta e supostamente sei controlar minhas emoções, dar o exemplo de calma. Já ouviste a expressão "gentileza gera gentileza"? Pois é, eu poderia dizer o mesmo de qualquer sentimento ou atitude: "rancor gera rancor", "raiva gera raiva", "violência gera violência", #grito gera grito"...
Uma casa bagunçada em alguns minutos (ou horas) arruma-se, uma relação problemática, uma criança revoltada, triste ou introvertida é um adulto problemático, impaciente, violento, depressivo, entre outras coisas que se resolvera com anos de terapia ou não se resolverá nunca; este adulto pode nem se aperceber que tem um problema e precisa de ajuda, porque cresceu assim, é o que conhece.
É importante que nós, pais, tomemos consciência disto o quanto antes. Criança precisa brincar e bagunçar mesmo, brincar sem preocupar com nada, viver o momento. Um amiga minha disse-me uma vez nada casa dela: "deixa, se não brincarem agora, vão brincar quando? Os brinquedos depois eu arrumo". Isto porque na casa das outras pessoas, apesar desta minha filosofia, tento que a Pipoca não desarrume as coisas, a gente nunca sabe como o anfitrião irá reagir. Felizmente a minha amiga pensa como eu. Mas conheço algumas pessoas que ficam o tempo todo em cima das crianças, chamando a atenção e mandando fazer isto ou aquilo. Nestas horas eu própria me irrito e apetece-me chamar-lhes à atenção para deixarem as crianças serem crianças...
NÃO É FÁCIL!
Acredita que não é! Às vezes ignorar a bagunça também é muito difícil para mim. Sou uma pessoa muito organizada, tenho um lugar para tudo, até para os brinquedos da Pipoca, sempre que arrumo é da mesma forma, nos mesmos lugares. Ela tem caixas para tralhas maiores, para peluches, para brinquedos pequenos e quando arrumo faço questão de separar cada coisa no seu lugar. Sabendo isso, a bagunça deveria deixar-me louca, não é?
O que quero dizer com tudo isto?
Que não devemos deixar que as coisas que tem solução tirar a nossa paz e perturbar a nossa relação com nossos filhos. Eles crescem muito rápido e vamos sentir falta dos momentos que deixamos de ver ou viver para ficar preocupadas com a casa bagunçada. Não estou a dizer que as crianças podem fazer e desfazer sem qualquer disciplina, estou a dizer que há formas de disciplinar que tornam a maternidade mais leve...
Meu conselho?
Da próxima vez que teu filho estiver bagunçando, se puderes, bagunça com ele. Senta, brinca, deixa tua criança interior vir cá para fora. Deixa-te levar pela brincadeira e pela imaginação sem se preocupar em arrumar depois. Dai quando ele quiser brincar de outra coisa, diz: "ok sem problemas brincar de outra coisa, mas vamos arrumar estes brinquedos primeiro." Provavelmente haverá resistência ou ate podes te surpreender. Se houver resistência, insiste: "se não arrumarmos, podemos pisar sem querer e magoar-nos ou podemos partir os brinquedos". Provavelmente começará a ter colaboração. Se não, insiste.
Às vezes eu tenho que insistir e ouço coisas como "tá bem, se tu queres arrumar", ela me diz muito contrariada, mas colabora. Outras vezes chora e se tiver sono esperneia e grita. E eu? mantenho a calma e continuo a falar num tom baixo e calmo. Ao reagir assim, ela acalma-se sozinha e admite que está cansada ou que não devia ter feito aquilo.
É difícil sim, não vou dizer que é fácil porque não é, mas com o tempo torna-se mais leve. Com o tempo vemos que nossas atitudes estão se refletindo no comportamento deles. Experimenta e depois me conta como foi... vais ter que ser persistente, poderás não conseguir na primeira, na segunda ou na terceira, talvez nem na décima! Brincadeiras à parte, é mesmo isso, se não desistir vais sim ver resultados. Tanto nós como eles vamos aprender com o tempo e prática, eles notarão a tua mudança e se adaptarão a ela...
Comigo funciona...
Obs.: é importante entretanto adaptar a forma de falar e de pedir colaboração consoante a idade da criança. A minha experiência neste momento é com uma criança de quase 5 anos. Funcionou até agora...
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