Esta mensagem não era para existir.
Ela era o fim do meu post anterior, onde eu falei sobre o sono da Pipoca, que tem dormido as noites inteiras e sobre o respeito pelo tempo das crianças, mas achei que o tema merecia ser tratado separadamente.
Quando falei sobre o respeito pelo tempo da criança, também quis dizer respeito pela criança no seu todo. Já venho dizendo isto em vários posts, porque é o que acredito. Crianças choram, porque é como sabem lutar pelo que precisam ou querem, é inato e vão fazê-lo enquanto não o souberem fazer de outra forma. Nós adultos choramos, choramos quando nos frustramos, quando nos decepcionamos, quando estamos esgotados, sem forças, sem rumo.
É importante, muito importante aceitarmos que tal como nós, adultos, precisamos de tempo para nos adaptarmos às novas situações, eles que ainda não sabem gerir emoções, precisam ainda mais. Quanto mais cedo nós pais, mães, avós, educadores, familiares em geral nos consciencializarmos disto, menos difícil será lidarmos com as suas reações: "birras", teimosias, choros "infundados", mais leve será a maternidade, mais estreitos os relacionamentos.
Crianças brincam. Crianças brincam à mesa, crianças brincam com a comida, é brincando com a comida que aprendem a comer sozinhas. É brincando à mesa que conseguem lá estar mais tempo sentadas. Levantam-se, correm, abraçam, beijam, deitam no chão e ao mesmo tempo comem. Claro que à medida que vão crescendo, temos que ensinar que a comida não é brinquedo e que à mesa não se brinca e chegará um tempo que eles conseguirão comer sem brincar, sem se levantar. Mas, já vos aconteceu de estarem num jantar, acabarem de comer e estarem desejosos de levantar da mesa? A mim já, várias vezes. Umas vezes levantei-me, outras sentia-me constrangida e limitava-me a esperar que os outros comessem. É uma tortura. Agora imagina, ou melhor, volta no tempo... lembra de quando eras criança e o que te custava estar sentado à mesa e ser obrigado a ali estar, quieto, sem falar, sem brincar, à espera que os adultos acabassem de comer. Lembra do sentimento. É esse sentimento que nossas crianças têm quando passam pelo mesmo. Que adulto quer estar sentado numa mesa com uma criança a chorar ou a queixar-se que está farta de ali estar, inquieta? Não será melhor deixá-la levantar-se e gastar suas energias a brincar no chão enquanto os adultos acabam sua refeição, conversando sem interrupções? A verdade é que antigamente era assim, enquanto os adultos não acabassem não se podia levantar e interiorizamos a criação que tivemos como o melhor, pois hoje somos adultos corretos, educados, de valores. Mas não, existe uma coisa muito importante que se chama evoluir. Não estou dizendo que uma criança pode fazer o que quiser à mesa, que se pode levantar e correr, saltar ou gritar como um selvagem. Estou dizendo que há tempo para tudo. Temos que ter em consideração a idade e a maturidade de cada criança. Claro que não vou aceitar que minha filha com 6 anos se ponha de pé na cadeira, ou que brinque com o garfo, mas aceito-o com 3 anos. Acredito que uma criança com 10 anos tenha maturidade para estar à mesa até o fim da refeição, até mesmo participar na conversa "dos adultos", mas não acredito que uma criança com 6 anos possa fazer o mesmo. É isso que quero dizer...
Isto do "saber estar" à mesa é só um exemplo dentre muitos outros da educação que muitos de nós tiveram. Não estou a dizer que nossos pais erraram, muito pelo contrário, eles fizeram o que acreditavam ser o melhor para nós e só temos que lhes ser gratos por isso. O que estou a dizer é que hoje sabemos mais, temos acesso a informações que nossos pais nunca sonharam ter. Temos estudos, temos provas científicas, temos troca de experiências nas redes sociais. Somos de certa forma privilegiados e só temos que filtrar essa informação, aceitar e evoluir com ela. Muito provavelmente quando formos avós essas informações e estudos estarão ultrapassados e tudo o que fazemos já não será o melhor, nesta altura as coisas se farão de forma bem diferente e espero eu, que minha filha acompanhe essas mudanças e aceite que apesar de eu ter dado o meu melhor, há sempre formas de melhorar ainda mais.

Mas uma coisa para mim é certa e dificilmente haverá um estudo no sentido contrário: o amor e o respeito não estragam ninguém, eles são a chave da evolução, a chave que abrirá portas para uma humanidade mais humana, porque sem isto, somos apenas animais que agem pelo instinto e que, infelizmente, não é o de sobrevivência, mas principalmente o do poder, o de controle.
Ela era o fim do meu post anterior, onde eu falei sobre o sono da Pipoca, que tem dormido as noites inteiras e sobre o respeito pelo tempo das crianças, mas achei que o tema merecia ser tratado separadamente.
Quando falei sobre o respeito pelo tempo da criança, também quis dizer respeito pela criança no seu todo. Já venho dizendo isto em vários posts, porque é o que acredito. Crianças choram, porque é como sabem lutar pelo que precisam ou querem, é inato e vão fazê-lo enquanto não o souberem fazer de outra forma. Nós adultos choramos, choramos quando nos frustramos, quando nos decepcionamos, quando estamos esgotados, sem forças, sem rumo.
É importante, muito importante aceitarmos que tal como nós, adultos, precisamos de tempo para nos adaptarmos às novas situações, eles que ainda não sabem gerir emoções, precisam ainda mais. Quanto mais cedo nós pais, mães, avós, educadores, familiares em geral nos consciencializarmos disto, menos difícil será lidarmos com as suas reações: "birras", teimosias, choros "infundados", mais leve será a maternidade, mais estreitos os relacionamentos.
Crianças brincam. Crianças brincam à mesa, crianças brincam com a comida, é brincando com a comida que aprendem a comer sozinhas. É brincando à mesa que conseguem lá estar mais tempo sentadas. Levantam-se, correm, abraçam, beijam, deitam no chão e ao mesmo tempo comem. Claro que à medida que vão crescendo, temos que ensinar que a comida não é brinquedo e que à mesa não se brinca e chegará um tempo que eles conseguirão comer sem brincar, sem se levantar. Mas, já vos aconteceu de estarem num jantar, acabarem de comer e estarem desejosos de levantar da mesa? A mim já, várias vezes. Umas vezes levantei-me, outras sentia-me constrangida e limitava-me a esperar que os outros comessem. É uma tortura. Agora imagina, ou melhor, volta no tempo... lembra de quando eras criança e o que te custava estar sentado à mesa e ser obrigado a ali estar, quieto, sem falar, sem brincar, à espera que os adultos acabassem de comer. Lembra do sentimento. É esse sentimento que nossas crianças têm quando passam pelo mesmo. Que adulto quer estar sentado numa mesa com uma criança a chorar ou a queixar-se que está farta de ali estar, inquieta? Não será melhor deixá-la levantar-se e gastar suas energias a brincar no chão enquanto os adultos acabam sua refeição, conversando sem interrupções? A verdade é que antigamente era assim, enquanto os adultos não acabassem não se podia levantar e interiorizamos a criação que tivemos como o melhor, pois hoje somos adultos corretos, educados, de valores. Mas não, existe uma coisa muito importante que se chama evoluir. Não estou dizendo que uma criança pode fazer o que quiser à mesa, que se pode levantar e correr, saltar ou gritar como um selvagem. Estou dizendo que há tempo para tudo. Temos que ter em consideração a idade e a maturidade de cada criança. Claro que não vou aceitar que minha filha com 6 anos se ponha de pé na cadeira, ou que brinque com o garfo, mas aceito-o com 3 anos. Acredito que uma criança com 10 anos tenha maturidade para estar à mesa até o fim da refeição, até mesmo participar na conversa "dos adultos", mas não acredito que uma criança com 6 anos possa fazer o mesmo. É isso que quero dizer...
Isto do "saber estar" à mesa é só um exemplo dentre muitos outros da educação que muitos de nós tiveram. Não estou a dizer que nossos pais erraram, muito pelo contrário, eles fizeram o que acreditavam ser o melhor para nós e só temos que lhes ser gratos por isso. O que estou a dizer é que hoje sabemos mais, temos acesso a informações que nossos pais nunca sonharam ter. Temos estudos, temos provas científicas, temos troca de experiências nas redes sociais. Somos de certa forma privilegiados e só temos que filtrar essa informação, aceitar e evoluir com ela. Muito provavelmente quando formos avós essas informações e estudos estarão ultrapassados e tudo o que fazemos já não será o melhor, nesta altura as coisas se farão de forma bem diferente e espero eu, que minha filha acompanhe essas mudanças e aceite que apesar de eu ter dado o meu melhor, há sempre formas de melhorar ainda mais.

Mas uma coisa para mim é certa e dificilmente haverá um estudo no sentido contrário: o amor e o respeito não estragam ninguém, eles são a chave da evolução, a chave que abrirá portas para uma humanidade mais humana, porque sem isto, somos apenas animais que agem pelo instinto e que, infelizmente, não é o de sobrevivência, mas principalmente o do poder, o de controle.
Quando abrimos mão do autoritarismo e do orgulho, quando agimos com amor, com compreensão, com respeito acima de tudo, é amor, compreensão e respeito que temos em troca. E não, não me venham com a conversa que eu e todas as mães que pensam como eu estão a criar uma geração cheia de mimimi, uma geração mimada e estragada, porque não é verdade. Geração estragada é a geração que vemos hoje, egoísta, que vive de aparências, que só pensam em ter, custe o que custar. Uma geração sem amor, sem respeito, sem valores.
Neste mundo de hoje onde mata-se por prazer, onde rouba-se por prazer, onde se maltrata por prazer, onde filhos abandonam pais, onde filhos batem nos pais, onde mulheres são violadas, abusadas, escravizadas e ainda culpadas pelos atos dos agressores, onde pessoas são obrigadas a deixar suas casas, suas vidas por causa de uma guerra que não é sua, mas política, uma disputa de poder que não leva ninguém a lugar nenhum, mas que gera milhões à máfia, ao tráfico de armas, ao tráfico de pessoas, aos governantes de muitos países... dizer que ensinar amor é estragar, é uma heresia, porque o amor e o respeito são as únicas esperanças deste mundo, quando deixarem de existir, a humanidade será a sua própria destruição...
Quando batemos, castigamos, gritamos, punimos uma criança porque fez algo que não devia, que na cabeça dela talvez até nem fosse nada de mal, mas que para nós é "errado", o que estamos ensinando? Paremos e pensemos... estamos ensinando que não se pode errar e que se errarmos seremos punidos. Criamos pessoas que vivem com o medo de errar e que farão de tudo e mais alguma coisa para não errarem, pessoas que passarão por cima de tudo e todos para serem "perfeitas", pois assim não serão punidas. Mais, criamos pessoas que não saberão lidar com os erros dos outros, que não aceitarão um deslize da esposa, do marido, do filho, do amigo, do colega de trabalho e das duas uma: será uma pessoa que agride, que grita, que maltrata sempre que o outro não corresponde às suas expectativas ou será uma pessoa de mau com a vida, que ficará de cara fechada com a esposa, que ignorará um pedido do filho, que acabará com uma amizade ou que será um péssimo colega de trabalho, uma pessoa frustrada porque não pode "punir ou castigar" essas pessoas pelos seus erros, tal como fizeram com ela. O pior é que essa pessoa não se dará conta de que isso é um reflexo da sua infância e achará natural agir assim ou assado, pois é como foi criado e não morreu. Por outro lado, se quando uma criança errar nós acolhermos, abraçarmos e dizermos que não tem mal nenhum em errar, mas que o erro pode ter consequências e que é uma lição a ser aprendida, estamos criando pessoas confiantes, pessoas que aceitam o erro, seja seu, seja do próximo, embora possa ter que arcar com o que dele advenha. Pessoas que saberão aprender com o erro, quando não sabem que "é errado" e pessoas que pensarão duas vezes antes de cometê-lo, quando é propositado.
É um tema complexo e complicado... porque não é fácil para nós, pais, despirmos do que pensamos ser a nossa autoridade. Mas também não é isso que estou a dizer. Eu falo em despir de autoritarismo. É preciso sim, ensinar nossos filhos que somos os seus pais e como tal, devemos ser respeitados, entretanto não devemos fazer disso uma bandeira e dizer: "está a ver esta bandeira? Pois é, tu és minha propriedade e fazes o que eu quiser e disser, só porque sou seu pai/mãe." Devemos usar a nossa autoridade para estabelecer regras e limites e ensinar a respeita-las, ensinando também as consequências do desrespeito às mesmas.
Por exemplo:
Regra: não se joga comida no chão; consequência: vai ter que limpar.
Regra: vai dormir tal hora; consequência: vai dormir mal e ficar cheio de sono no dia seguinte.
Regra: arrumar os brinquedos depois de brincar; consequência: pode pisar e se magoar, os brinquedos podem quebrar ou desaparecer.
Regra: estudar e fazer os trabalhos de casa; consequência: más notas, menos possibilidade de entrar num bom curso universitário.
E por aí vai... isto são exemplos simples e bobos, mas que funcionam. Minha Pipoca já vai tendo noção de algumas regras e consequências... até me dá graça a reação dela a algumas. O banho ela nunca quer, é um filme entrar na banheira todos os dias. Houve um dia que ela não quis tomar banho e como tinha estado em casa o dia todo deixei; à noite tinha comichão no bumbum. Eu disse-lhe: isso é porque não quiseste tomar banho, é o que a sujeira faz. Há dois dias não queria outra vez tomar banho e eu disse: "mas temos que lavar o bumbum"; ela aceitou sem problemas, eu liguei a torneira e ela automaticamente foi tirando a roupa, despiu-se, entrou na banheira e tomou banho sem problemas. Também já está consciente que tem que lavar os dentes, principalmente depois de comer doces e chocolates; ela quando come uma bolacha recheada, uma goma (o que é raro) ou um chocolate, mal acaba diz: "agora tenho que lavar os dentinhos porque tem bichinhos". Eu lhe mostrei a minha boca há um tempo atrás; tive muitas cáries na infância e tenho muitos dentes chumbados, disse-lhe que não gostava de lavar por isso os bichinhos comeram os meus dentes. Ela ficou horrorizada, mas aprendeu a consequência de não lavar os dentes.
Agora, imagina que eu gritasse com ela ou lhe batesse ou mesmo ameaçasse colocá-la de castigo porque ela não quer tomar banho ou lavar os dentes? Todos os dias ia ser mais do mesmo, ela acabaria por aceitar fazer o que eu "mandei" por medo de apanhar, mas que lição ia aprender? Que tem que tomar banho senão a mãe/pai lhe bate ou grita ou castiga; ela teria medo da punição, mas não teria qualquer noção do por quê eu querer que ela tome banho ou lave os dentes. Muito provavelmente quando chegasse a hora de fazê-lo sozinha, não fizesse ou mentisse dizendo que tinha feito, só para não ser punida. Mais, iria arcar com as consequências sem ter aprendido que poderia tê-las evitado, porque ninguém lhe ensinou...
"Ah! Mas eles têm que se frustrar para aprender a lidar com a frustração". Não tem expressão que me digam que me irrite mais do que esta. É verdade, acredito piamente que as crianças precisam aprender a lidar com as frustrações, mas eu, como mãe, não tenho que ser a causadora da frustração só para lhe dar uma lição. Eu como mãe só o faço quando não posso evitar; o meu dever é ensinar a lidar com a frustração e não causá-la. A vida vai se encarregar disso e começa muito cedo: quando um coleguinha diz "não és minha amiga" ou "este vestido é feio", como já acontece com a minha Pipoca, que recusou-se a vestir um vestido pelo que a colega disse.
Quando lhe nego um brinquedo que eu não posso ou acho que não devo comprar naquele momento ela já vai aprendendo o que posso e não posso lhe dar, de certa forma ela já está aprendendo a lidar com a frustração de não poder ter os brinquedos todos que quer. Quando vamos ao centro comercial ela vai direita à loja de brinquedos e diz: "quero escolher um brinquedo", eu muitas vezes digo-lhe: "hoje não filha, a mamã hoje não tem dinheiro" e ela olha, aprecia, diz que encontrou o brinquedo que procurava, mas aceita que não o pode levar. Outras vezes digo: "ok, mas um barato", nestas alturas ela já olha para os brinquedos com outros olhos, quando são grandes diz: "mamã, gosto deste, mas é caro", ou um pequeno: "mamã, este é barato, não é?". No início, eu dizia não e ela chorava porque queria, era uma frustração causada por mim, que eu não podia evitar causar, caso contrário, ela estaria aprendendo que pode ter tudo o que quer quando quer e não é esta a educação que lhe quero dar. Mas eu conversava com ela de forma que ela entendesse que ela não pode ter todos os brinquedos que quer e que nem sempre eu vou poder comprar as coisas que ela pede e aos poucos ela foi aprendendo.
Outro exemplo é comer a ver TV. Às vezes, no fim de semana, colocamos a mesinha dela na sala e partilhamos uma refeição à frente da televisão, um lanche ou umas tapas. Claro que isto não pode virar regra e por isso só o fazemos de vez em quando. Ontem ela quis comer a ver bonecos, o pai disse que não podia, porque é só nos dias que não tem escola. Ela abriu um berreiro e quanto mais tentávamos acalmá-la, mais ela chorava. Deixamo-la na sala para se acalmar e fomos jantar. Aos poucos ela foi se acalmando, apesar de só ter ido para a mesa quando o pai a foi buscar, foi possível conversarmos e explicarmos as coisas. Foi uma frustração que não pudemos evitar, ela tinha que aprender que é só de vez em quando e não pode ser sempre que ela quer.
O que eu quero dizer com isto tudo? Que mesmo sem querermos também somos responsáveis por frustrar nossos filhos e por isso mesmo não precisamos fazê-lo de propósito. Não precisamos dizer "não" só para ensinar uma lição, só para nos afirmarmos como autoridade. O "não" deve ser uma palavra de contingência e não uma constante, porque senão acaba por perder o seu valor, torna-se banal. É importante termos consciência que conceder um desejo aos nossos filhos não é propriamente ceder à sua vontade porque na verdade há mais situações em que podemos dizer "sim" do que "não" e isso não é um sinal de fraqueza, não é perder autoridade, é principalmente aceitar que eles são pessoas que, da maneira deles, sabem o que querem e se não há perigo ou consequência negativa em conceder, qual é o problema? O problema muitas vezes somos nós que criamos! Se eu hoje pensei vestir-lhe umas calças, mas ela se recusa porque quer um vestido, por que negar? Para criar logo uma crise de choro, ou birra para quem preferir? Para nos stressarmos antes de sair de casa, porque não há dia que não aconteça alguma coisa e já não sabemos fazer diferente? Para ensinar a lidar com a frustração? Para mim isso é no mínimo cruel e não didático...
Quando batemos, castigamos, gritamos, punimos uma criança porque fez algo que não devia, que na cabeça dela talvez até nem fosse nada de mal, mas que para nós é "errado", o que estamos ensinando? Paremos e pensemos... estamos ensinando que não se pode errar e que se errarmos seremos punidos. Criamos pessoas que vivem com o medo de errar e que farão de tudo e mais alguma coisa para não errarem, pessoas que passarão por cima de tudo e todos para serem "perfeitas", pois assim não serão punidas. Mais, criamos pessoas que não saberão lidar com os erros dos outros, que não aceitarão um deslize da esposa, do marido, do filho, do amigo, do colega de trabalho e das duas uma: será uma pessoa que agride, que grita, que maltrata sempre que o outro não corresponde às suas expectativas ou será uma pessoa de mau com a vida, que ficará de cara fechada com a esposa, que ignorará um pedido do filho, que acabará com uma amizade ou que será um péssimo colega de trabalho, uma pessoa frustrada porque não pode "punir ou castigar" essas pessoas pelos seus erros, tal como fizeram com ela. O pior é que essa pessoa não se dará conta de que isso é um reflexo da sua infância e achará natural agir assim ou assado, pois é como foi criado e não morreu. Por outro lado, se quando uma criança errar nós acolhermos, abraçarmos e dizermos que não tem mal nenhum em errar, mas que o erro pode ter consequências e que é uma lição a ser aprendida, estamos criando pessoas confiantes, pessoas que aceitam o erro, seja seu, seja do próximo, embora possa ter que arcar com o que dele advenha. Pessoas que saberão aprender com o erro, quando não sabem que "é errado" e pessoas que pensarão duas vezes antes de cometê-lo, quando é propositado.
É um tema complexo e complicado... porque não é fácil para nós, pais, despirmos do que pensamos ser a nossa autoridade. Mas também não é isso que estou a dizer. Eu falo em despir de autoritarismo. É preciso sim, ensinar nossos filhos que somos os seus pais e como tal, devemos ser respeitados, entretanto não devemos fazer disso uma bandeira e dizer: "está a ver esta bandeira? Pois é, tu és minha propriedade e fazes o que eu quiser e disser, só porque sou seu pai/mãe." Devemos usar a nossa autoridade para estabelecer regras e limites e ensinar a respeita-las, ensinando também as consequências do desrespeito às mesmas.
Regra: não se joga comida no chão; consequência: vai ter que limpar.
Regra: vai dormir tal hora; consequência: vai dormir mal e ficar cheio de sono no dia seguinte.
Regra: arrumar os brinquedos depois de brincar; consequência: pode pisar e se magoar, os brinquedos podem quebrar ou desaparecer.
Regra: estudar e fazer os trabalhos de casa; consequência: más notas, menos possibilidade de entrar num bom curso universitário.
E por aí vai... isto são exemplos simples e bobos, mas que funcionam. Minha Pipoca já vai tendo noção de algumas regras e consequências... até me dá graça a reação dela a algumas. O banho ela nunca quer, é um filme entrar na banheira todos os dias. Houve um dia que ela não quis tomar banho e como tinha estado em casa o dia todo deixei; à noite tinha comichão no bumbum. Eu disse-lhe: isso é porque não quiseste tomar banho, é o que a sujeira faz. Há dois dias não queria outra vez tomar banho e eu disse: "mas temos que lavar o bumbum"; ela aceitou sem problemas, eu liguei a torneira e ela automaticamente foi tirando a roupa, despiu-se, entrou na banheira e tomou banho sem problemas. Também já está consciente que tem que lavar os dentes, principalmente depois de comer doces e chocolates; ela quando come uma bolacha recheada, uma goma (o que é raro) ou um chocolate, mal acaba diz: "agora tenho que lavar os dentinhos porque tem bichinhos". Eu lhe mostrei a minha boca há um tempo atrás; tive muitas cáries na infância e tenho muitos dentes chumbados, disse-lhe que não gostava de lavar por isso os bichinhos comeram os meus dentes. Ela ficou horrorizada, mas aprendeu a consequência de não lavar os dentes.
Agora, imagina que eu gritasse com ela ou lhe batesse ou mesmo ameaçasse colocá-la de castigo porque ela não quer tomar banho ou lavar os dentes? Todos os dias ia ser mais do mesmo, ela acabaria por aceitar fazer o que eu "mandei" por medo de apanhar, mas que lição ia aprender? Que tem que tomar banho senão a mãe/pai lhe bate ou grita ou castiga; ela teria medo da punição, mas não teria qualquer noção do por quê eu querer que ela tome banho ou lave os dentes. Muito provavelmente quando chegasse a hora de fazê-lo sozinha, não fizesse ou mentisse dizendo que tinha feito, só para não ser punida. Mais, iria arcar com as consequências sem ter aprendido que poderia tê-las evitado, porque ninguém lhe ensinou...
"Ah! Mas eles têm que se frustrar para aprender a lidar com a frustração". Não tem expressão que me digam que me irrite mais do que esta. É verdade, acredito piamente que as crianças precisam aprender a lidar com as frustrações, mas eu, como mãe, não tenho que ser a causadora da frustração só para lhe dar uma lição. Eu como mãe só o faço quando não posso evitar; o meu dever é ensinar a lidar com a frustração e não causá-la. A vida vai se encarregar disso e começa muito cedo: quando um coleguinha diz "não és minha amiga" ou "este vestido é feio", como já acontece com a minha Pipoca, que recusou-se a vestir um vestido pelo que a colega disse.
Quando lhe nego um brinquedo que eu não posso ou acho que não devo comprar naquele momento ela já vai aprendendo o que posso e não posso lhe dar, de certa forma ela já está aprendendo a lidar com a frustração de não poder ter os brinquedos todos que quer. Quando vamos ao centro comercial ela vai direita à loja de brinquedos e diz: "quero escolher um brinquedo", eu muitas vezes digo-lhe: "hoje não filha, a mamã hoje não tem dinheiro" e ela olha, aprecia, diz que encontrou o brinquedo que procurava, mas aceita que não o pode levar. Outras vezes digo: "ok, mas um barato", nestas alturas ela já olha para os brinquedos com outros olhos, quando são grandes diz: "mamã, gosto deste, mas é caro", ou um pequeno: "mamã, este é barato, não é?". No início, eu dizia não e ela chorava porque queria, era uma frustração causada por mim, que eu não podia evitar causar, caso contrário, ela estaria aprendendo que pode ter tudo o que quer quando quer e não é esta a educação que lhe quero dar. Mas eu conversava com ela de forma que ela entendesse que ela não pode ter todos os brinquedos que quer e que nem sempre eu vou poder comprar as coisas que ela pede e aos poucos ela foi aprendendo.
Outro exemplo é comer a ver TV. Às vezes, no fim de semana, colocamos a mesinha dela na sala e partilhamos uma refeição à frente da televisão, um lanche ou umas tapas. Claro que isto não pode virar regra e por isso só o fazemos de vez em quando. Ontem ela quis comer a ver bonecos, o pai disse que não podia, porque é só nos dias que não tem escola. Ela abriu um berreiro e quanto mais tentávamos acalmá-la, mais ela chorava. Deixamo-la na sala para se acalmar e fomos jantar. Aos poucos ela foi se acalmando, apesar de só ter ido para a mesa quando o pai a foi buscar, foi possível conversarmos e explicarmos as coisas. Foi uma frustração que não pudemos evitar, ela tinha que aprender que é só de vez em quando e não pode ser sempre que ela quer.
O que eu quero dizer com isto tudo? Que mesmo sem querermos também somos responsáveis por frustrar nossos filhos e por isso mesmo não precisamos fazê-lo de propósito. Não precisamos dizer "não" só para ensinar uma lição, só para nos afirmarmos como autoridade. O "não" deve ser uma palavra de contingência e não uma constante, porque senão acaba por perder o seu valor, torna-se banal. É importante termos consciência que conceder um desejo aos nossos filhos não é propriamente ceder à sua vontade porque na verdade há mais situações em que podemos dizer "sim" do que "não" e isso não é um sinal de fraqueza, não é perder autoridade, é principalmente aceitar que eles são pessoas que, da maneira deles, sabem o que querem e se não há perigo ou consequência negativa em conceder, qual é o problema? O problema muitas vezes somos nós que criamos! Se eu hoje pensei vestir-lhe umas calças, mas ela se recusa porque quer um vestido, por que negar? Para criar logo uma crise de choro, ou birra para quem preferir? Para nos stressarmos antes de sair de casa, porque não há dia que não aconteça alguma coisa e já não sabemos fazer diferente? Para ensinar a lidar com a frustração? Para mim isso é no mínimo cruel e não didático...
Por isso, pais, não tenham medo de dar amor e de respeitar seus filhos como filhos, como indivíduos. É melhor ensinar cooperação do que obrigação, isto é, melhor deixar o orgulho da autoridade de lado e dizer "eu preciso da tua ajuda" do que "faz porque eu estou mandando". Ensina o teu filho a cooperar e não a obedecer... a cooperação enche o coração de alegria, é doar-se ao outro, a obrigação enche o coração de fúria, de frustração porque é fazer algo que não se deseja, faz-se porque o outro quer.
Não sou uma mãe perfeita, nem o aspiro ser, mas prefiro acreditar que educar com amor é a solução para uma geração mais gentil e cooperante, de paz, mais preocupada com o seu redor do que seguir uma "doutrina" de medo e punição que pode culminar uma geração violenta, odiosa, indiferente e/ou deprimida, doente...
Menos orgulho, mais respeito por favor...
Não sou uma mãe perfeita, nem o aspiro ser, mas prefiro acreditar que educar com amor é a solução para uma geração mais gentil e cooperante, de paz, mais preocupada com o seu redor do que seguir uma "doutrina" de medo e punição que pode culminar uma geração violenta, odiosa, indiferente e/ou deprimida, doente...
Menos orgulho, mais respeito por favor...

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