segunda-feira, 18 de maio de 2020

A pandemia do nosso tempo

Há muito tempo que não escrevo nada. Às vezes falta-me inspiração, outras tempo, outras vontade. 
A verdade é que estamos vivendo um período em que temos todo o tempo do mundo e acabamos não tendo tempo para nada. As mães que têm filhos pequenos vão me entender.

Este novo coronavírus chegou, abanou as nossas vidas e parece que já não vai embora, vamos mesmo ter que conviver com ele... Obrigou-nos a reinventar-mo-nos enquanto familias, pois estávamos habituados a uma rotina que virou de pernas para o ar; obrigou empresas a aderir ao teletrabalho, mostrando que as pessoas não precisam estar confinadas em escritórios 8 horas por dia para fazerem o mesmo; fechou restaurantes, cafés, bares, ginásios, centros comerciais... parou o mundo, de certa forma. Parou o mundo, parou-nos, paralisou-nos também. Queria acreditar que vamos mesmo ficar todos bem, mas sei que nem todos vamos... 

Infelizmente ficamos reféns do medo de uma doença sobre a qual pouco se sabe, para a qual não há vacina nem tratamento, que se propaga a uma velocidade alarmante deixando vulneráveis os sistemas de saúde de grande parte dos países afetados, incluindo grandes potências, cuja forma de minimizar é o isolamento social, é deixarmos de estar com família, com amigos. Uma doença que uniu pais e filhos, mas afastou avós e netos, estreitou laços outrora esquecidos mas também revelou monstros capazes de agredir filhos até a morte; reinventou empresas mas derrubou economias; reduziu o buraco na camada de ozono mas provocou o aumento da pobreza e consequentemente da fome no mundo... uma doença que revelou o melhor e o pior de nós.

O medo paralisa e o maior medo dos pais em geral, penso que ainda maiores nas mães é o medo da morte (penso que meu ultimo post foi justamente sobre isto). Não da morte em si, mas por acreditar que ninguém no mundo vai amar nossos filhos como nós, e não vai mesmo. É saber que vão se sentir abandonados, principalmente os que ainda não entendem o contexto de morte. Esse é o meu maior medo e confesso que me sinto paralisada. Ao mesmo tempo que penso que temos que regressar ao ativo, voltar ao trabalho, as crianças à escola, tenho medo. Sinto falta de socializar, de jantar com amigos, de sentar numa esplanada a jogar conversa fora...mas acho que temos todos medo! 

Eu me considero uma pessoa saudável e penso que se for infetada terei sintomas leves, mas isso é o que considero, eu não sei se depois não terei complicações. Pior: e se tenho sintomas leves e tenho que fazer o isolamento dentro de casa? Fechada sozinha num quarto durante duas semanas ou mais, sabendo que minha filha está ali e não podemos estar juntas? Imagina-te a ouvir teu filho a chamar por ti para comer, para tomar banho, para lavar os dentes, para dormir, sabendo que estás ali e tu não podes atender? Imagina! Eu tremo só de pensar nessa hipótese! Por essas e outras coisas, sinto-me paralisada. Quero fazer tantas coisas e não faço nada. Vou ao supermercado e pouco mais. Quando saio com a Pipoca é para passeios breves, sem contato com ninguém, ela própria evita o contato com pessoas, pois sabe que está aí o coronavirus. É triste... 

Se tem uma parte da história da qual eu gostaria de não fazer parte é esta. Mas é uma realidade e tenho que aceitar o que não posso mudar. Têm sido dias desafiantes. No início era mais fácil, para a Pipoca era como férias, acordávamos, brincávamos com os brinquedos dela, ela via vídeos ou televisão enquanto eu cozinhava ou ajudava-me na medida do possível, brincávamos mais um pouco... e assim passávamos os dias. Acontece que morar num apartamento sem espaço exterior, a brincar com os mesmos brinquedos todos os dias foi se tornando aborrecido, ela já não quer brincar tanto, eu já não tenho paciência para certas brincadeiras que antes tinha... há dias que tenho vontade de colocá-la à frente da tv do dia inteiro só para ter um bocadinho de tempo para mim. Estou num estado de cansaço físico e psicológico que acredito muitas mães estão. Para ter um tempinho para mim, comecei a esticar a hora de dormir e nunca consigo ir para a cama antes das duas da manhã e quando vou não adormeço e acordo com ela, por volta das nove. O pai continuou a trabalhar, pois trabalha na área da saúde e era impensável ficar em casa neste momento, acorda e sai cedo e dorme cedo... e assim tem sido nossos dias. Com o início do desconfinamento de vez em quando vamos "dar uma voltinha", mas muitas vezes a Pipoca não quer sair, porque chateiam as voltinhas, ela quer ir ao parque, quer ver os amigos e as voltinhas não são suficientes. 

Ironicamente, neste cenário todo, a pandemia do nosso tempo: as redes sociais, que isolavam as pessoas dentro de casa, tornaram-se a nossa cura, o tratamento para a solidão que o isolamento trouxe, unindo familias, amigos, colegas de trabalho pelo mundo inteiro... é nelas que partilhamos nossos receios, fazemos declarações de amor, comemoramos aniversários... essa é agora a nossa realidade! Espero mesmo que vivamos essa nova realidade de leve, para que não esqueçamos o quanto as pessoas nos fazem falta, porque, para o bem e para o mal, o ser humano habitua-se muito facilmente. Não podemos deixar que o medo nos obrigue a habituar a viver isolados, espero que a pandemia do nosso tempo não substitua por completo a presença e que, pelo contrário, nos ajude a lembrar todos os dias o quanto um abraço conforta, o quando uma boa conversa com amigos à volta de uma mesa nos renova, o quanto os avós fazem falta e que a solidão mata...



Que não nos enlouqueçamos por estar "trancados" em casa, mas que saibamos gerir internamente de forma a usufruir deste tempo da melhor forma possível com nossos pequenos (e grandes também), porque para nós essa pandemia do coronavírus ficará marcada pela liberdade que nos foi tirada, enquanto para eles será o tempo que os pais foram inteiramente deles... porque a realidade que eles conheciam desde sempre era estar com os pais duas ou três horas por dia, agora estar com os pais (nem que seja só um deles, mesmo em teletrabalho) é o melhor que lhes podia acontecer! 

Apesar de às vezes a Pipoca dizer que esse coronavírus não lhe deixa fazer nada, acredito que ela não trocava estes dias por nada neste mundo! 


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