Cá por estes lados, também temos esse problema. Mas não há stress, não há gritos, não há chantagens e acima de tudo: não se obriga a comer.
Minha pipoca come "sozinha" desde os 9 meses. Sim, come com as mãos e aos poucos vai aprendendo a comer com a colher ou garfo e sim, faz aquela sujeira!!
Começou a comer sopas e papas aos 5 meses. Infelizmente não consegui amamentar e só tive leite para tirar com a bomba até os 3 meses dela. A partir daí foi sempre fórmula. Com 5 meses entrou na creche e por orientação médica começou com as papas e sopas... Confesso que foi mais fácil do que eu pensava. Ela aceitou super bem as papas e bem as sopas. A introdução alimentar foi quase toda feita na creche, uma vez que era lá que ela almoçava.
Por volta dos 9 meses começou a rejeitar as sopas e só querer sólidos. Então criei uma tática que era: deixava-a comer "sozinha" o 2.º prato (sólido) e enquanto isso ia lhe dando umas colheradas de sopa. Havia dias que corriam melhores que outros... mas ela lá ia comendo a sopa. Claro que ia mais comida para o chão do que para a boca, mas isso é só um detalhe!
A verdade é que havia dias que ela não queria nada, nem sopa nem o que lhe punha no prato. Nesses dias eu não me stressei, não gritei e nem tentei fazê-la comer. Simplesmente entendi, aceitei e optei por dar-lhe um iogurte, papa, pão... basicamente, um lanche.
Muito boa gente vai dizer que estou cedendo aos caprichos dela e que ela tem que comer o que lhe ponho à frente, senão fica mal acostumada. Talvez tenham razão, talvez não. Prefiro seguir meu instinto. Leio e releio os tais blogs sobre maternidade e sobre alimentação infantil e todos dizem que devemos insistir até não sei quantas vezes para que um bebe aprenda a comer certos alimentos. Provavelmente é mesmo assim.
Neste momento não come sopas, nem na creche nem em casa, aprendeu a cuspir quando não gosta. Não me chateia nada. Por quê? Porque imagina você, adulto, comendo a mesma coisa todos os dias, ao almoço e ao jantar, desde que te lembras de ser gente!
É isso mesmo... as crianças também têm o direito de não ter apetite naquele momento, naquele dia ou para certos alimentos. Têm o direito de enjoar de comer sempre a mesma coisa.
É tal e qual a história do deixar chorar: quando um amigo ou parente adulto chora por alguma razão o que fazemos? Rapidamente o abraçamos para consolar (e olha que adulto sabe expressar-se oralmente)! Então por que tanta gente insiste que devemos deixar as crianças chorarem, que lhes faz bem, que se devem aprender a consolar sozinhas e que devem aprender a lidar com a frustração? E esses adultos que choram, não são maduros o suficiente para lidar com a sua frustração? Pois é...
Com a alimentação é igual. Imagina que um adulto vá a um restaurante e não tem direito de escolha. Tem que comer o que lhe servirem. Ele vai olhar para a comida e poderá pensar: "humm hoje estava mesmo a apetecer isto" ou "não era bem isto que estava a pensar, mas parece apetitoso, vou comer" ou, tal como imagino que seja com as crianças quando não comem: "hoje não me apetece nada isso" e coloca uma colherada na boca, faz vómito ou a comida anda às voltas na boca. Não há direito de pedir outro prato, tem que comer isto e acabou. Não, isto não acontece no mundo dos adultos.
Quantas vezes tenho o meu almoço à frente e não me apetece comer! Ou o jantar, que quando não apetece é logo trocado por uma sandes, umas bolachas ou uma pizza! Porque as crianças não têm esse direito de não apetecer? Porque se faz chantagens como; "não comes vais para o quarto" ou "ok, não comes agora, mas também não comes mais nada". Já vi uma criança de 4 anos que não quis comer a sopa e passou um dia inteiro sem comer, mesmo com fome, porque a mãe disse que só comia outras coisas depois de comer a sopa. A verdade é que a repulsa dela pela sopa foi mais forte que a fome que tinha e conseguiu ficar sem comer praticamente o dia todo, até que o tio aos poucos conseguiu que ela comesse um pouquinho, para que pudesse jantar o que havia para todos.
Não é justo! Vamos ser mais tolerantes com nossas crianças!
Eu sei que serei crucificada. Vão dizer: "ah! por isso essa geração está como está, com tanto mimimi... comigo foi assim e hoje estou aqui, forte e como de tudo"... O que serve para uns nem sempre serve para outros. Claro que se temos uma criança com idade para falar e entender, pode expressar-se e dizer: hoje não consigo comer isso, mas como aquilo... e não estou falando de pizzas ou bolachas. Devemos estar abertos a alternativas. Hoje não apetece massa, mas comes arroz. Hoje não apetece frango, mas comes um ovo mexido... Não é difícil, a não ser quando somos tão alienados que não queremos ter o trabalho de fazer ou "gastar tempo" no fogão.
E se déssemos alguma alternativa? Se deixássemos que participem nas decisões do que vamos fazer para o jantar? Provavelmente vamos acabar surpreendidos pela positiva com opções que teremos! Talvez acabe aquele probleminha básico de "não sei o que faço hoje para o jantar"...
Pois é, minha pipoca ainda vai fazer 18 meses. Fala pouco e ainda não sabe se expressar para dizer o que gostaria de comer ao jantar. Mesmo assim, o "restaurante" dela está sempre pronto a oferecer alternativas. No fim de semana fiz pescada refogada com puré de batatas. Eu já sabia que ela não gosta de pures, não sei se pela textura ou pelo sabor mesmo, não come por nada, mas fui na teoria de oferecer até não sei quantas vezes. A verdade é que ela não comeu. Passava o puré pelo corpo como se fosse creme hidratante, mas nem uma vez o colocou na boca. O peixinho, comeu um ou outro pedaço. Sabia que ela não ia almoçar aquilo e lhe preparei um ovo mexido em óleo de côco... comeu tudinho! Ainda comeu quase uma banana inteira de sobremesa.
Tenho uma experiência própria com comida. Quando era criança comia mal, é verdade. Tinha anemia e minha mãe fazia fígado de boi porque era bom, tinha vitaminas e me obrigava a comer. Lembro-me perfeitamente da repulsa que me dava. Até me lembro de uma discussão do meu pai com ela por me obrigar a comer aquilo. Hoje não posso ver fígado à frente, só o cheiro me dá voltas ao estômago.
Meu pai também tem traumas de infância por ser obrigado a comer. Lá se vai a teoria do "comigo faziam assim e hoje como tudo"... como eu disse, o que serve para uns nem sempre servem para os outros. De família pobre e numerosa (meu pai é o 20.º de 21 irmãos), foi criado em seminário Marista. Conta que era obrigado a comer certas refeições, (lembro-me mais da sopa de ervilhas e abóbora) neste caso por não terem mais nada, e que só tinham carne uma vez por outra, um pedacinho de nada. Hoje meu pai não come de tudo, pelo contrário, tem um leque bastante restrito de alimentos que gosta e consegue comer e não passa sem carne.
Não quero traumas lá em casa, não quero tardes de fome, não quero repulsa aos alimentos. Não vou deixar de oferecer, mas também não vou obrigar a comer. Não vou substituir o bróculo por bolachas e o puré por chocolates, mas posso oferecer antes cenoura cozida e arroz, ou massa, por exemplo.
Como tudo, aprende-se muito mais facilmente quando temos prazer. É isto, a hora da papa tem que ser um prazer e não uma tortura. Não sejamos, nós pais, os carrascos de nossos filhos, disso a vida se encarregará. Eles aprenderão com os seus erros tal como nós aprendemos com os nossos. Se não comerem hoje poderão (ou não) comer amanhã. Que possamos dar a liberdade pelo que tanto ansiávamos quando éramos nós as crianças.
Ao deixá-las fazer escolhas também os estamos a ensinar a responsabilidade e consequências dessas escolhas: "hoje vais comer tudo, pois a mãe fez o que pediste" - isto é, foi uma escolha tua, agora tens que arcar com as consequências.
Façamos da hora da papa um momento tranquilo, sem stress, sem gritos... apenas uma hora de prazer em família!
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