segunda-feira, 28 de agosto de 2017

E a mãe, como está?

Há muito que leio que uma mulher depois que se torna mãe entrega-se de corpo e alma ao bebé e esquece de si mesma. É verdade. É verdade e todas as pessoas à volta ajudam muito para que isto aconteça. Isto não é uma queixa, é a constatação de um facto. No momento não nos apercebemos, acho que nem as pessoas à nossa volta se apercebem. só depois que passa é que nos vamos dando conta... 

Durante a gravidez tudo gira em torno da barriga e dos preparativos para a chegada do rebento. todos, amigos e família só se preocupam com a barriga. Perguntam como está a gravidez, o sexo do bebe, o nome, se está tudo pronto entre 1001 outras coisas, mas ninguém pergunta como nós estamos como mulheres. Ninguém pergunta como nos sentimos. Ninguém nos diz para aproveitarmos esse período e irmos ao salão e fazer um corte no cabelo, para arranjarmos as unhas, para nos maquilharmos, porque depois vai ser complicado. Ninguém nos dizer que iremos nos sentir sozinhas, muitas vezes, mesmo estando rodeadas de pessoas.

Depois do parto toda a gente só pensa no bebe. Se está a mamar bem, se está a ganhar peso, se dorme a noite toda (como se algum bebe dormisse uma noite inteira). Todos dão os seus palpites para aumentar o leite, para aliviar cólicas, para que o bebe durma melhor. Ninguém se lembra de perguntar pela mãe, e tu, como estás? Tens descansado? Queres conversar, falar sobre ti? Só lembram de perguntar quantos pontos levamos e se conseguimos nos sentar!

Depois de passarem os primeiros meses, quando a curiosidade pelo bebe vai se dissipando, quando as pessoas se acostumam com a existência desse novo ser, aos poucos vão deixando de perguntar. Vão deixando de aparecer. Vão deixando de "se preocupar". 

É aí que sentimos uma espécie de vazio, de solidão. Não é solidão de estarmos sozinhas, pois temos o nosso amor maior, temos (ou pelo menos é suposto termos) os nossos parceiros, algumas de nós tem a sorte de ter a mãe por perto (o que não é o meu caso) ou a irmã. É uma solidão difícil de explicar. Talvez seja carência que sentimos como solidão. Carência de chegar o fim de semana e termos amigos a perguntar: "onde vamos, o que fazemos?" Carência de ter o marido a dizer: "vamos jantar em tal lugar hoje ou vamos à tal festa?" Carência de que os amigos nos digam: "olha, sei que talvez não possas ir, mas vamos ali, caso queiras e possas aparecer". Carência de ser lembrada.

Solidão materna... Sentir-se sozinha em meio a uma multidão. 

Eu sempre fui alto astral em relação a tudo. Durante a gravidez era-me indiferente não perguntarem por mim. Eu entendo, antes eu fazia o mesmo. Depois do parto compreendi que só quisessem saber da bebe, eu antes fazia o mesmo. Conheço muitas pessoas, muitas das quais com quem posso sair e passar um bocado bastante agradável, mas é só isso. Não tenho muitos amigos. aliás, posso contá-los nos dedos de uma mão e sobram dedos. Sem me aperceber entreguei-me completamente à maternidade. Esqueci de mim como pessoa, como mulher.

Ainda cheguei ir à manicura por unhas de gel porque duram mais tempo (mas acabei por desistir e ficar sem nada mesmo) e cortei o cabelo bem curto porque começou a cair. Mas foi só isso. Se tinha um jantar ou não ia ou tinha que levar a Pipoca. Convites para parques aquáticos passaram à história, praia só às oito da manhã, copos... copos à noite? Que é isso? Come-se? 

Hoje, faltando um dia para completar 20 meses de Pipoca olho para trás e vejo isso tudo. Não foram só as pessoas que deixaram de fazer convites ou se preocupar. Eu me fechei no meu mundo de mãe. Eu também deixei de procurar. Assim que eu pari vesti um fato de "mulher maravilha" e vi-me capaz de tudo, sozinha. Achava que só eu era capaz de cuidar da Pipoca, só eu a podia acalmar durante a noite, só eu a protegeria do mundo. O pior é que o pai teve um esgotamento e acabou por ser mesmo assim. Tive que ser eu para tudo durante uns largos meses e vi-me completamente esgotada e mais sozinha do que nunca. O pai agora está bem, tentando recuperar o tempo perdido, pois a Pipoca agarrou-se de tal forma à mãe que acabou por tornar a minha síndrome de super mãe em realidade. Pior que com isto sinto-me completamente transtornada cada vez que se fala em sair e não levá-la, cada vez que se fala em deixá-la com alguém que não o pai ou a creche. Quando vêem o quão apegada ela é a mim (quando está comigo não tem para ninguém), perguntam como é que ela fica na creche. Engraçado, quase nunca ficou a chorar, ultimamente não quer vir embora. Acho que por isso é mais fácil para mim deixá-la na creche do que com alguém. 

Este mês ela tem se mostrado mais "desgarrada", um pouco menos apegada a mim. Confesso que até me dá um nó no peito, pois sei que ela está se descobrindo como pessoa separada de mim e isto custa-me. Ela está crescendo e ganhando a sua independência. Já tem vontades próprias e já escolhe muita coisa, inclusive com quem quer estar. Por enquanto a mãe ainda vai à frente, mas tenho perfeita consciência que chegará o momento que ela vai se agarrar ao pai. Pelo menos é o que dizem, que meninas são mais apegadas ao pai. Mas ao mesmo tempo o facto dela já estar mais "sociável" por assim dizer tem-me dado tempo para olhar para trás. tem-me feito ver que está na hora de cuidar de mim, de voltar a ser mulher e não apenas mãe. 

Já tenho vontade de sair com os amigos e já consegui deixar a Pipoca por algumas horas para isso. Há um mês era incapaz. Tanto que combinei tudo com minha cunhada para ir a um jantar de anos e na última hora acabei por levá-la comigo. Há duas noites consegui sair e ter uma "ladies night", embora pelo menos uma vez tenha mandado uma mensagem para "checar" se estava tudo ok. Agora combino um sábado com colegas de trabalho para "fechar o verão" num parque aquático. Essa vai doer mais. Mas eu sei que ela vai estar em boas mãos, nas mãos do papá.

Apesar de eu hoje saber e ter consciência que muitas vezes a solidão que sentimos é culpa nossa, é bom que as pessoas à volta também se apercebam que esse isolamento não é proposital e que não nos deixem isolar-nos. Eu sei que é difícil estar sempre atrás de pessoas que não querem saber de nós, mas no caso de mães recentes, não é que não queremos, é que não conseguimos. 

Por isso, deixo um toque: perguntem sempre, sempre todas as vezes: "e a mãe, como está?".

2 comentários:

  1. Ora bem ....deixa lá fazer parte do teu blog...só um pouquinho....Obrigada....

    Às vezes ,ou muitas vezes é chegar a casa a correr dar banhos a correr ,jantar a correr e pôr na cama a correr.... e quando por fim , sento no sofá....uiiiiii que bom....mas a sensação de "gostusura" dura tão poucochinho... Que tempo estive com eles , brinquei com eles, conversei com eles... que tempo gozei com eles???? O cansaço é imenso e nem sempre o conseguimos mas devia ser obrigatório...um tempo para nós e um tempo de qualidade para eles .... Eu tento e tento sobretudo dizer e mostrar todos os dias o quanto os amo!
    Bem haja pela tua partilha!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É verdade. Apesar do meu cansaço, raramente perco a paciência e tento aproveitar ao máximo enquanto ela está acordada. Mas há dias que me vejo mais irritada, parece que até sinto vontade que as horas passem para pô-la na cama e descansar, principalmente quando a hora do jantar corre menos bem e a comida acaba toda no chão de propósito. Depois vem aquele sentimento parvo de culpa, de que essa fase vai passar e que tenho que aproveitar todo e qualquer minuto e consigo me acalmar. E quando me sento no sofá ao fim do dia, parece que não existe melhor lugar no mundo!

      Eliminar

Socorro, que bagunça!

Hoje venho aqui falar de um assunto muito delicado: bagunça. Yeahhh! Só que não! Desde quando bagunça é assunto delicado, né!  Então vamos l...

Número total de visualizações de páginas