quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Pais sem tempo

Só hoje li duas publicações no Facebook sobre uma coisa que me incomoda e na qual tenho pensado muito desde que voltei ao trabalho, ainda mais quando a Pipoca fez um ano que ao invés de 6 eu trabalho 8 horas por dia.

Uma das publicações é de uma página que acompanho que se chama "O jantar está quase" e a outra foi partilhada pela página "Uma janela aberta à família" e as duas falam da falta de tempo que nós pai temos para os filhos.

É uma realidade pura e dura. Antigamente quando as mulheres não podiam trabalhar fora era só os pais que não tinham tempo. Meu pai até hoje nos conta que não se lembra de ver-nos crescer. Meu marido também diz que o pai quase nunca estava em casa, estava sempre a trabalhar. Naquela época tinha que ser, pois as mães eram "donas de casa" e era apenas uma renda a entrar. Os pais eram homens e tinham que por dinheiro em casa, as mulheres tinham que cuidar da casa, do marido e dos filhos.

Com a luta pelos direitos iguais a mulher foi conquistando o seu espaço no mercado de trabalho e, sem perceber, ia perdendo o tempo que tinha disponível para os filhos. Hoje em dia o que noto é que os pais continuam trabalhando muitas horas e muitos continuam a não ver os filhos crescerem, mesmo sendo duas rendas a entrar em casa. Viva a globalização e as tecnologias! Viva o conhecimento! Antes vivia-se com menos, dava-se aos filhos uma bola, um carrinho e uma boneca e eram brinquedos para todas as idades. Hoje em dia são telemóveis, tablets, Ipods, Ipads, computadores, gameboys, video jogos entre outras coisas que se me dizem não faço a menor ideia do que seja. As bolas, bonecas e carrinhos passaram à história, são brinquedos para bebés e, e... e a contribuição da mãe não chega para que os pais trabalhem menos, pois suprir essas "necessidades tecnológicas" custa caro. Além disso há que pagar a creche, a escola, a explicação (porque não temos tempo para ajudá-los com as tarefas da escola), o supermercado fica mais caro, pois compramos comidas congeladas, lanches processado entre outras coisas que só fazem é mal, mas que não temos tempo de preparar em casa. Há que pagar pela gasolina dos dois carros, dois seguros, dois impostos. Há que pagar visitas de estudos e ATL para o mais velho, pois não temos quem fique com ele até sairmos do trabalho... e a lista vai longa.

Também há o factor necessidade que nós mulheres temos de trabalhar. Lutou-se tanto para isso e torna-se difícil abrirmos mão desse direito, dessa independência e segurança que o  trabalho acaba por nos dar. Hoje em dia mães que optam por deixar o trabalho para se dedicar aos filhos são consideradas "inconsequentes", "malucas" e até mesmo "preguiçosas"; o pior disso é que são assim vistas por muitas outras mulheres que também são mães, que pelo contrário, deviam mostrar o seu apoio, pois ficar em casa hoje em dia é uma escolha e não uma obrigação. 

Há ainda a questão medo. Mesmo as mães que financeiramente se sentem à vontade para deixar o trabalho e se dedicar aos filhos acabam muitas vezes por não fazê-lo por causa do medo. Medo de daqui 4 ou 5 anos, quando já se sente confortável para voltar ao mercado de trabalho, não conseguir emprego. Infelizmente a sociedade neste aspecto é machista, é ingrata. Ainda mais difícil fica se a mãe tem mais de 35 anos. Então acaba por se resignar e continuar a trabalhar, abdicando do tempo com os filhos em prol de um futuro (in)certo.

Com isto tudo pergunto: onde é que entra o tempo para os filhos? 

Acordamos as sete ou oito e o tempo que temos é o de dar o pequeno almoço aos pequenos, lavá-los, vesti-los e sairmos a correr para deixá-los na creche ou escola e ainda chegamos atrasadas ao trabalho. Um dia porque sujou-se na hora de sair, ou encheu a fralda. Outro dia porque é verão e apanhamos mais trânsito do que o normal. Noutro o pequeno está mais carente e não quer soltar o pescoço da mãe porque está meio adoentado e a mãe ainda não se apercebeu, ou porque sente mesmo a falta dela... chega o fim do dia a mãe sai a correr do trabalho para ir buscar a cria porque já é tarde e a creche está quase a fechar. A cria não quer sentar-se na cadeira do carro e faz aquela birra... a mãe com a pressa e o cansaço insiste e põe-lhe na cadeira à força e vai para casa com 1001 coisas na cabeça. Chega em casa liga a TV para entreter o pequeno e vai tratar do jantar. Dá-lhe o jantar, o banho e repara que o pequeno só faz é chorar por tudo e por nada, olha para seus olhinhos e só vê o sono instalado; põe-lhe na cama e vai dar um duche rápido porque o pequeno pode acordar chorando. Entretanto o pai, que não pode ir buscar os filhos à creche porque o horário é incompatível, chega à casa, também cansado, toma também o seu duche, jantam e caem duros no sofá por um bocadinho que podem relaxar e dedicar-se um ao outro. 

Onde entra o tempo para os filhos? Onde entra o tempo para o casal? 

Não entra. 

Lá em casa não é bem, bem como descrito, mas o tempo também não é muito: de manhã ainda brinco com a Pipoca por uns minutinhos, se ela acorda muito cedo pode estender-se por uma horinha, mesmo quando às vezes não consigo sequer abrir os olhos. Muitas vezes tenho que acordar o pai para brincar com ela enquanto eu durmo mais meia hora para conseguir abrir os olhos. No fim do dia costumo dedicar-me a ela 100%. Posso dizer que sou uma felizarda por ter um marido com quem posso dividir as tarefas de casa e uma delas é o jantar, o que nos permite dedicar-nos um pouco mais à pequenina. Quando vou buscá-la à creche não vou a correr para a casa. Brincamos um pouco à porta da creche, ela gosta de sentar no lugar do condutor e ligar a música. Gosta de sentar e levantar na beirada da calçada. Eu acedo. Quando vejo que ela já está ficando farta coloco-a na cadeira, sem birra, sem choro. À porta de casa muitas vezes temos mais um bocadinho de rua. Antes do jantar brincamos com os brinquedos dela. Depois do jantar é hora do banho e depois brincamos mais um pouquinho. Quando vai dando hora de dormir preparamos o "leitinho" e vamos para a cama. Isso é rotina lá em casa. Dizem que crianças gostam e precisam de rotina.  Eu gostaria de ter mais tempo. 

Assim contando, até parece que brincamos durante muito tempo. Mas na verdade não passa de cerca de duas horas e meia, às vezes menos. Chego à creche para apanhá-la as 6:30h da tarde e ela dorme entre as 9 e 9:30h, se acorda muito cedo às 8:15h já dorme. Assim passam os dias, os meses... e passarão os anos. Sem tempo.

Há muito que fico aqui, magicando o que poderia fazer para ter mais tempo. Não me posso dar ao luxo de ficar em casa porque as despesas são mais que muitas, mesmo que só o básico. Sonho um dia trabalhar para mim, mas não sou uma pessoa criativa e ainda não descobri algo que eu goste, que me permita ter tempo e me dê estabilidade financeira... ufa! Difícil, né! Enquanto isso o tempo vai passando e não damos por ele. A Pipoca já tem quase dois anos que passaram num piscar de olhos. Daqui a nada está na universidade e aí talvez eu tenha algum tempo, mas aí quem não vai ter tempo é ela.

Apesar de não ter tempo, neste momento a minha prioridade é ela e acho que é por isso que abdico de muitas coisas, muitas saídas com amigos. Se não posso levá-la, também não vou (quando vou fico cheia de remorsos e nem me divirto como deveria). Se estou a fazer mal? Talvez. Eu sei que como mulher, preciso de um tempo para mim, mas se eu pensar bem, eu estarei a minha vida toda comigo mesma; terei todo o tempo do mundo para mim mesma quando a minha filha tiver a sua própria "falta de tempo". Como casal também precisamos de tempo a sós, precisamos sair, jantar, namorar; sim, precisamos, mas se estivermos em sintonia conseguimos conciliar as coisas com a presença da Pipoca, até que um dia seremos só nós os dois e teremos todo o tempo do mundo só para nós.

Não quero ser uma mãe alienada. Não sou contra as tecnologias, se as soubermos utilizar tornam-se grandes aliadas. Mas não quero ser substituída por elas, quero que a minha filha se lembre nos seus momentos de medo e angústias que não precisa partilhar com o facebook ou outra rede social qualquer, pode partilhar comigo que estarei lá para ela, para o bem e para o mal. Quero que ela se sinta confortada num dia triste e turbulento (já que não os poderei evitar nem torná-los meus) na canção de ninar que lhe canto todos os dias, desde que ela nasceu, mesmo que eu já cá não esteja. 

Quero que o pouco  tempo que tenho seja de qualidade, que seja dela. Nem sempre consigo, às vezes é preciso respirar fundo. Principalmente naqueles em que a brincadeira não corre assim tão bem e há birras, há pontapés... haverá dias em que incluirão frase do tipo "não gosto mais de ti", "és feia" e que me vai doer. Mas que saberei perdoar imediatamente, saberei que foi da "boca para fora". 

Enfim, não quero que o meu legado seja a memória de uma mãe sem tempo. Quero sim que seja de uma mãe que dedicava todo o tempo que tinha. Simples assim.







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