Nunca tinha acontecido.
Eu sempre tive muito receio em deixar a Pipoca com a avó. Até então a avó muitas vezes não lhe podia nem olhar, tocar então era um Deus nos acuda. Já ouve dia da avó lhe passar o dedo no bracinho e ela berrar como se lhe estivessem a espancar. Acreditem, posso contar nos dedos das mãos as fotos que ela tem no colo da avó. Era um chororô sempre que a avó lhe pegava. Por isso eu nunca tive a iniciativa de deixá-la com a avó fosse para o que fosse, mesmo porque só a deixo com alguém se tiver mesmo que ser, pelos motivos que falo no meu ultimo post "Pais sem tempo" e porque os avós também não têm tempo (eu devia também fazer um post sobre isso). Entretanto, desta vez eu não tive muita escolha.
Também é verdade que não estamos sempre juntos. A avó B tem uma vida bastante complicada e o tempo é bastante escasso (um problema geral da sociedade de hoje, acho eu). No encontramos um ou dois domingos por mês, muito difícil acontecer durante a semana. Olha que moramos a 25 km de distância apenas... Nós temos muitas vezes planos que não incluem a ida à casa deles e eles pelo cansaço ou falta de tempo também não aparecem muito.
Com o final do ano letivo, a creche iria fechar nos dois últimos dias do mês de Agosto para limpezas e organização para o início do novo ano. Das duas uma: eu tirava férias no trabalho ou arranjava alguém com quem deixá-la. Depois de ter estado de baixa por causa da Otite que ela teve há menos de 15 dias, era um bocado complicado tirar férias, para além do facto de já não ter muitas (com dias em casa para cuidar dela quando doente fui gastando aos pouquinhos).
Depois de alguma insistência do pai que perguntou porque eu não deixava com a minha sogra, a segunda opção foi tomada. Só depois de eu muito negar, de dar desculpas esfarrapadas como "a tua mãe não dá conta dela", "a moça não vai querer ficar com ela", etc, etc. Ele disse que não concordava, que achava que eu devia deixá-la com a avó. Era tudo por medo, por superproteção. Eu queria ficar com ela, eu e só eu. As palavras do pai ecoaram durante dois ou três dias na minha cabeça e apesar do nervoso miudinho, concordei que seria a melhor opção.
Minha filha uma vez mostrou-me que está crescendo e não é mais aquela bebezinha agarrada à mamã. Na minha cabeça só comigo ela estaria bem... e ela vem provando que não é bem assim, que ela já não é tão parte de mim como eu ainda sou e serei sempre dela e principalmente que ela precisa de estar com outras pessoas, precisa de espaço para que suas asas comecem a crescer.
A avó se dispôs a vir ter conosco e ficou a tomar conta dela. Chegou em casa de manhã, a pequena a recebeu e depois de eu me despedir a dizer que ela ficaria com a avó, tomaram o pequeno almoço juntas e brincaram. Eu saí e disse a mim mesma que não iria ligar, não queria ser a mãe galinha e preocupada. Assim o fiz.
Segundo consta fizeram desenhos, brincaram com legos, contaram histórias e foram passear. Foram ver a bisavó, foram ao parque andar nos escorregas e bateram pernas por aí. Eu tinha deixado uma massinha pronta para ela, mas pelo visto não lhe agradou. Parece que só houve choro na hora de dormir, pois a avó a colocou na cama e saiu do quarto. Ela lá ficou como eu nunca deixo, chorando, depois dormiu. Após acordar, o pai que almoça em casa fez-lhe um ovo mexido e ela lá comeu. À tarde foram para a casa da tia e passou a tarde na galhofa com os primos. Fui buscá-la, ela correu para os meus braços, abraçou-me e depressa virou as costas e continuou na brincadeira. Mais uma vez pude ver que ela está se desprendendo. Fomos para casa e seguimos com a nossa rotina.
No segundo dia ela já ficou meio apreensiva quando viu a avó de manhã. Agarrou-se a mim e só lhe dizia não. Eu entendi, ela sabia que ia novamente ficar sem mim e não era na creche com quem estava habituada. Mas eu voltei a dizer-lhe que ia trabalhar e ela ficaria com a avó e fui. Nesta hora o pai ainda estava em casa, o que facilitou (para mim) a minha saída. Mais uma vez passearam... encontraram com os primos de Lisboa e passaram uma manhã divertida. A avó fez-lhe sopa, ela comeu a que lá estava, comeu a da avó e comeu o almoço que lhe tinha deixado. Comeu fruta. A avó ficou radiante de vê-la comer tão bem! Dormiu por três horas e meia, desta vez eu não quis saber como ela dormiu, só sei que dormiu. Pularam na cama, desenharam, contaram histórias. Cheguei em casa e elas não estavam. Quando chegaram ela não queria entrar em casa, queria mais!
Quando o pai chegou era hora da avó ir embora, hoje já era dia de creche. Ela ao ver a avó e o pai se prepararem para sair pediu colo e não lhes largava. Tive que ir até à rua com ela. Ao vê-los entrar no carro só dizia: "aqui, aqui bobó"... meu coração apertou neste momento. Ela chorou dizendo "blabalba bobó"... É mesmo impressionante como em tão pouco tempo uma criança se apega a alguém que lhes trate bem. Há cerca de um mês a avó não lhe podia tocar e ontem não lhe queria deixar...
Fiquei contente, muito contente e tranquila. Sempre que falamos de apoio de familiares eu me sinto um bocado órfã. Meus pais e irmãos estão no Brasil e aqui a família além de pequenina, cada um tem os seus trabalhos e compromissos. Minha sogra abriu mão do seu tempo para dedicar-se por dois dias inteiros à Pipoca. Senti-me mais amparada e pude descansar porque ela ficou bem. Se vai se repetir? Com certeza.
Eu me lembro tanto da minha avó! As melhores e mais nítidas memórias que tenho de infância foram vividas na casa dela. Quero tanto isso para a minha filha! Claro que não é a mesma coisa! A minha avó não trabalhava fora, tinha uma casa com um quintal enorme cheio de árvores de frutas, tinha galinheiro, tinha tempo. A minha sogra mora em um apartamento sem varandas, não tem tempo. Os meus pais têm tempo, moram à beira-mar numa casa com quintal, mas a 10.000 km de distância.
Minha filha nunca terá o que eu tive. Nem é suposto ter. Sei que ela terá o melhor de nós todos. As memórias dela serão as melhores que pudermos proporcionar com o nosso tempo, com o que nós temos para dar. Por isso digo uma coisa: se tiverem oportunidade, deixem sim os seus filhos em casa com a avó... mesmo que elas não façam o que nós pedimos. Mesmo que dêem doces e deixem ver televisão antes de dormir. Os avós são também para isso, para proporcionar aos nossos filhos momentos que não terão nunca conosco, para ter uma relação que será só deles.
Eu, mãe de primeira viagem e depois dos 30, encarei a maternidade como toda minha e envolvi a minha Pipoca numa bolha, só porque ela era muito agarrada. Nunca a quis deixar, ainda não quero, com outras pessoas. Custa-me, principalmente se for para me divertir, uma coisa que faço por opção. Mas porque teve de ser eu abri mão dessa bolha, eu a deixei para ir trabalhar. Ela sobreviveu, ela ficou bem, ela gostou.
Agora só falta a mãe se consciencializar que a filha está crescendo a olhos vistos e já vai tendo a sua autonomia... ai ai! Essa parte é dura de encarar! Afinal, minha Pipoca já está "madura" o suficiente para ficar em casa com a avó.

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