quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Nossa primeira grande viagem


Graaaande viagem mesmo!

Muito se fala da dificuldade em viajar com crianças; da bagagem que é muito maior, das esperas infindáveis nos aeroportos, dos passageiros que parecem nunca ter sido crianças e que não sabem ser solidários diante de um choro e claro, dos pais que não educam as suas crianças e parece que viajamos com um bando de macacos (esta última é experiência própria).

A verdade é que a dificuldade em viajar com crianças muitas vezes é um mito, uma desculpa que muitas pessoas inventam para deixar os filhos em casa ou porque não os sabem controlar ou porque querem um tempo para si. Atenção! Eu disse às vezes... porque não gosto de generalizações e podem sim haver viagens complicadas com crianças, principalmente pequeninas.

Mas... estou aqui para contar a minha experiência e desmistificar um pouco essa dificuldade, do meu ponto de vista. 

Já tínhamos viajado com a Pipoca no ano passado, quando ela tinha acabado de fazer 8 meses; fomos uns dias para uma herdade no Alentejo, mais precisamente em Reguengos de Monsaraz. Foi só ali e fomos os três. Foi uma viagem em que tínhamos que comer sempre fora e tivemos que levar sopas e papas prontas para ela. Sabe o que achei difícil? Encontrar um restaurante onde comer qualquer coisa que não fosse carne! Só isso. Não foi nada diferente de estar em casa e sair para comer fora. Mas aí vem aquela crítica: "ah mas você não andou de avião, nem foi para um país diferente, esteve apenas há poucos km de casa"! Tem toda razão... 

Então vou falar da nossa segunda viagem, dessa vez só eu e ela, atravessando o oceano rumo ao Brasil. Desta vez envolve avião, espera em aeroporto porque fizemos duas escalas, mais três horas de carro. E agora? Talvez já conte, não é! Passo a contar...

Tinha a Pipoca acabado de fazer 15 meses, ainda não tinha um mês que começara a andar. Eu não quis viajar com carrinho, achei que uma mala grande e uma mochila já era bagagem suficiente, então antes de ir comprei uma mochila canguru que foi muito útil. Na mala coloquei as nossas roupas e fraldas, porque não sabia o que ia encontrar de fraldas lá nem quando daria para ir comprar. Na mochila coloquei duas mudas de roupa para ela, uma para mim, uma toalha de bidé, toalhitas, fraldas (muitas), o biberão, um pacote de leite de fórmula, iogurtes daqueles que não precisam de ir ao frigorífico, pacotinhos de fruta e bolachas. Levei ainda uma bolsa tipo frasqueira com nossos documentos, duas chupetas e coisas de higiene para ambas. Levei a mochila às costas, a Pipoca à frente e a bolsa pendurada ao pescoço, tinha ainda dois casacos, o dela e o meu. Sim, pode não parecer, mas era muita coisa... eu estava uma mula de ciganos.

Saímos de Faro por volta das 4 da tarde num vôo da Iberia em direção a Madri, onde iríamos apanhar o vôo para São Paulo. O pai esperou conosco enquanto foi possível em Faro, depois disso estivemos por nossa conta. Parte chata: passar a segurança. Pousar a mochila no tapete, tirar a Pipoca da mochila, tirar a mochila, tirar relógio e ainda bem que não tinha mais nada para tirar. Depois de passar voltar a colocar tudo. Dentro do avião a parte chata é esperar até todos entrarem, uma vez que com criança de colo somos os primeiros... na descolagem ainda fiquei com receio que lhe doessem os ouvidos, por isso dei-lhe a chupeta, mas nem era preciso, ela portou-se tão bem! Assim que deram o sinal e desapertamos o cinto ela quis levantar-se, o avião estava até um pouco vazio e eu acedi. Ela sempre muito bem disposta não se distanciava, mas falava com as pessoas à volta que não pareceram nem um pouco incomodadas, pelo contrário, ficaram encantadas com ela. Ela não adormeceu. 

Já em Madri foram cerca de 4 horas de espera. Apanhei um carrinho e para descansar meu corpo colocava-a no carrinho e andava de um lado para o outro. Coisa boa do aeroporto de Madri: no terminal de vôos domésticos há vários escorregas para as crianças se distraírem. A parte complicada desta espera em Madri: não consegui comprar sopa em nenhum lugar, nem no McDonald's, em Espanha não há como há aqui a sopa do dia, então tive que lhe dar o que tinha comigo, dei iogurte e bolachas e confesso que me senti um pouco mal em não conseguir dar uma comida de sal de jeito à miúda, mas nem as sandes me convenciam. Com o cair da noite ela foi ficando cansada e adormeceu no canguru e eu como já tinha rodado toda a zona de alimentação e nada me convencia, rendi-me ao McDonald's e comi um McChicken, com ela ao colo. Quando se aproximou a hora de embarque fui procurar saber onde deveria ir e descobri que tinha que mudar de terminal... foi uma correria só! Ainda por cima tinha que descer de elevador e entrar num comboio e não podia levar o carrinho de bagagem! Ps.: no comboio foi preciso uma senhora inglesa se levantar e ceder-me o lugar, porque a adolescente ao telemóvel, o homem de negócios ao computador e o matulão no lugar prioritário a fingir que dormia não foram capazes, mesmo vendo-me com a miúda ao colo e a mochila às costas. 

Já no terminal correto, correria para encontrar o portão de embarque e entrei logo na fila prioritária, o embarque era perto das onze da noite. Dentro do avião, ao meu lado um lugar vazio que rezei para que ninguém sentasse e assim foi. Assim que permitido, deitei ali a Pipoca que felizmente dormiu a viagem toda e pude descansar um pouco. Ao jantar lembrei que a Pipoca não tinha comido nada de sal e pedi massa, guardei-lhe um pouco ainda esperando que ela acordasse, mas não aconteceu. Dificuldade? Ir à casa de banho! Tinha um homem ao lado dela, mas não me sentia segura a pedir que lhe olhasse, mesmo porque hoje em dia quem vê cara não vê coração e não sabia quem era aquele homem e o que poderia fazer sozinho com ela, então pedia sempre uma assistente para ficar com ela e elas muito simpáticas sempre. 

A pipoca acordou quando começaram a servir o pequeno almoço. Aproveitei para lhe dar um pão e fruta. Ela sempre muito calma, sem chorar. As trocas de fraldas foram feitas ali na poltrona mesmo para não acordá-la e nos aeroportos ia ao fraldário. Já em São Paulo, passar pela Polícia Federal e apanhar a mala, parece que agora em SP temos sempre que tirar a bagagem, mesmo comprando bilhetes de ligação. Claro que pedi ajuda com a mala... depois encontrar o balcão para fazer novo check in e o local de embarque para esperar, mais umas 3 horas de espera.

Já no Brasil, minha tranquilidade no aeroporto já não era a mesma que em Madri. Já tinha uma atenção redobrada com a mochila e a bolsa e ainda mais com minha Pipoca. Ela que aprendera a andar há pouco tempo não parava! Mas o tempo até passou rápido e na fila para entrar no avião ela adormeceu e foi assim praticamente até chegar a Vitória, onde meus pais nos foram buscar. Tive a sorte de me sentar logo na primeira fila ao lado de um casal "grávido" que foi muito simpático e prestativo. No local de recolha de bagagem a minha mãe chegou à porta e pediu para pegar a Pipoca, mas como ela não iria, dei-lhe a bolsa e a mochila e fui pedir ajuda a alguém com a mala.

Enfim nos braços da família! Mas ainda não estávamos em casa... nisto já eram mais ou menos 11 da manhã no Brasil. Fomos almoçar à casa de um tio que mora em Vitória e aproveitamos para tomar um banho e descansar o corpo. A Pipoca estava fresca como tudo! Risonha e simpática como sempre. Depois do almoço caímos na estrada e foram mais 3 horas de carro até a casa dos meus pais. Ela não gostou do ovo que meus pais arranjaram, realmente era um pouco esquisito e estava sempre pedindo para sair. Sorte que com o balanço adormeceu. Enfim em casa, mais ou menos 5 da tarde do dia seguinte. Fomos recebidos pelo meu irmão que já nos esperava, minha mãe fez o jantar, comemos, tomamos outro banho e e as sete e meia já estávamos na cama. Às cinco e meia da manhã a Pipoca já estava de pé, por causa do fuso horário... mas isso é outra história.

Ufa! Já viram bem essa saga? Mais de 24 horas viajando sozinha com uma bebe de 15 meses que mal andava. Contando assim até parece que foi custoso, difícil, mas não foi. Cansativo sim, minhas pernas estavam que nem sei, a coluna então! Juntando o peso da mochila com o desconforto do avião, eu estava moída. Mas não foi difícil. Claro que a minha Pipoca colaborou muito, pouco chorou (tanto que nem me lembro) e dormiu super bem, comportou-se melhor do que muitas crianças maiores. 

O que eu fiz diferente na volta? A mochila. Não levei muda de roupa para mim (só tinha na ida porque aconselharam-me, no caso dela vomitar), levei apenas uma muda para ela e menos fraldas. Já não tinha pacotinhos de frutas nem iogurtes, apenas o leite e bolachas. Confesso que estava bem mais leve. Na volta meu pai deixou-nos no aeroporto e foi-se embora com minha mãe, ele disse que é porque estava ficando escuro e não gostava de conduzir à noite, mas acho que também tinha uma pontinha de tristeza que ele não queria que eu visse. Entrei logo para a zona restrita e esperamos... ela entrou novamente no avião dormindo e acordou já estávamos a chegar a SP. 

No retorno já não tive que levantar bagagem até o destino final, o que foi um alívio. No aeroporto do Brasil também não havia sopa, então comprei pão de queijo e foi o nosso lanche ajantarado. Dessa vez ao jantar em vôo ela ainda estava acordada, comeu pouco mas comeu arroz com feijão e um bocadinho de frango e em seguida adormeceu. Dessa vez tive que solicitar um favor à pessoa que ia ao meu lado, um senhor espanhol que não se importou de mudar de lugar para eu ter onde deitar a Pipoca. Ao nosso lado ia uma senhora da minha idade, muito simpática e mãe de filhos, que foi uma grande ajuda, ficando com a Pipoca para eu ir à casa de banho e até me ajudou com a troca de fraldas. Novamente a Pipoca dormiu a viagem toda e acordou com o pequeno almoço. Desta vez em Madri a espera foi pequenina, os escorregas ajudaram e ela não só já andava com muita segurança como já corria! Upgrade resultado de três semanas no Brasil. Na viagem para Faro não dormiu mas sempre bem disposta. Em Faro foi o tempo de retirar a bagagem e ir ter com o pai que aguardava ansioso. 

Apesar do cansaço, eu faria  tudo novamente. Muito provavelmente outras pessoas não fariam o que eu fiz. Foi difícil? Não vou negar que foi. Chega um momento que desejamos ter alguém com quem falar, alguém em quem encostarmos a cabeça no ombro para fechar os olhos uns segundos, alguém que segure na criança para irmos à casa de banho, alguém que olhe por ela para comermos uma sandes, alguém apenas para sentar ao nosso lado e nos dar um aconchego, alguém para ajudar na hora de passar a segurança, na hora de apanhar os documentos...

Mas acho que isto pode ser comparado com o parto: se formos já com medo, cheias de receio, fica tudo mais difícil. Se formos relaxadas, confiantes, encontramos forças e as coisas fluem mais facilmente, dói menos.  

Óbvio que a minha Pipoca foi uma verdadeira princesa. Imagino que viajar com crianças inquietas e que não conseguem mesmo ficar quietas deve ser muito mais difícil, mas não impossível. Cada mãe conhece seu filho e as maneiras de acalmá-los. Havia por exemplo, na volta, uma criança espanhola que chorava imenso, mais velha que a minha Pipoca, viajava com os pais, a mãe enrolada com a cabeça no colo do pai a dormir e o pai tentando lidar com a situação sozinho. Não julgo aquela mãe, porque não sei o que ela teria passado até então. Mas imagino que a viagem daqueles pais foi muito mais complicada que a minha e mesmo assim, lá estavam eles. 

Enfim, não dá para deixar de fazer as coisas só porque parece difícil. por essa ordem de ideias nem sei quando iria ao Brasil levar a Pipoca para a família conhecer. É claro que para fazer turismo, temos que escolher bem os locais onde ir, porque aí não é só a viagem em si, mas a estadia, os locais para visitar... claro que teremos que adaptar a viagem considerando o "pingente" que levamos. Mas que dá para fazer, isso dá! Olha aquela mãe que aproveitou a licença maternidade para viajar com os filhos! Sempre ouvi dizer que faz muito mais quem quer do que quem tem... 

Ó, mas deixo bem claro: esta é a minha experiência e foi boa, não quer dizer que outras pessoas ao fazer o mesmo não tenham outra bem diferente. Compreendo que cada família tem as suas dificuldades e cada criança é diferente, não dá mesmo para generalizar...





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