terça-feira, 5 de junho de 2018

Ela precisa gritar tanto?

Essa foi a pergunta que o pai me fez ontem. Não respondi de imediato.



A Pipoca adora encenar os vídeos que vê no youtube - sim, a minha filha já anda no youtube, não me julguem. Ela costuma ver vídeos com a música dos dedos ensinando as cores, vídeos de bebes a aprenderem a lavar os dentes e a tomar banho e vê os vídeos com a música "Jonny, Jonny, _yes papa" que são muito educativos e a meio destes aparecem uns com crianças a brincar em parques, a correr e a gritar, fazendo coisas de crianças. Ela encena-os  todos... comigo gosta muito do "Jonny, Jonny", ela faz a parte do papá e eu a do bebé, também costuma me colocar coisas nos dedos para cantar a música da família dos dedos com as cores e em inglês. Crianças são esponjas e aprendem tudo, imitam tudo...

Ontem estava a dar-lhe banho, ela estava já com algum sono e fazia de tudo para espantá-lo. Uma das coisas que fazia era gritar. Mas não era gritar só porque sim, ela parecia eufórica nos seus pensamentos, na sua imaginação, dava para ver que estava a imitar as crianças dos vídeos. Brincava sozinha na banheira, ela e sua imaginação, enquanto eu apenas olhava, apenas admirava, apenas me apaixonava mais, encantava-me mais a ver como ela se desenvolveu, como ela cresceu e como o tempo é cruel conosco, passa rápido demais. Eu não "ouvia" os gritos, eu ouvia apenas uma criança a ser criança, uma criança feliz...

O pai veio ter comigo: "_não ouviste o que perguntei? Ela precisa gritar tanto?" "_Ouvi, respondi eu". "_Então?" 

Eu parei um segundo, acordei daquele meu estado de admiração e encantamento, olhei para ele e respondi: "_não, ela não precisa gritar tanto. Mas crianças gritam, crianças falam alto, crianças felizes gritam ainda mais. Ela está apenas a ser o que é: feliz"... Ele muito resignado, num tom irónico apenas me diz: "_Ok, com essa resposta já não digo mais nada". Eu na minha santa paciência no próximo grito que ela deu apenas falei-lhe baixinho: "_filha, já chega de gritos, está bem?". Ela acalmou e foi brincar com o seu "Mica" (um boneco do Mickey), claro que de vez em quando cantava alto ou soltava um gritinho... não dá para evitar.

A atitude do pai face aos gritos da Pipoca deu-me que pensar, porque eu percebi que ele reprovava o facto de eu deixá-la gritar, estando eu mesmo ao lado dela. Da mesma forma que ele, a maioria das pessoas é assim. A maioria das pessoas não compreende e deve ter uma memória muito curta, pois já se esqueceu do que é ser criança. Ou a maioria foi podada, passava a vida a ser repreendida uma infância inteira a ouvir não grita, não sobe, não mexe, não, não, não... Puxa vida! Se minha filha não pode ser ela mesma, criança feliz dentro da própria casa, onde há de ser? 

Basta passarmos em frente a uma escola na hora do recreio para percebermos que crianças quando estão felizes e contentes gritam. Nós adultos, quando estamos numa roda de amigos, numa festa, com colegas de trabalho, ou basta apenas termos uma boa notícia que ficamos eufóricos e sem nos apercebermos começamos a falar alto, a atropelarmo-nos uns aos outros, um querendo falar mais e mais alto. Às vezes gritamos também... 

Há muito boa gente que me vai criticar. Vai dizer que isso é "mimimi" e que estou a criar um monstrinho, que sou uma mãe "Nutella" seja lá o que isso quer dizer; deve ser bom né, porque Nutella é difícil alguém que não goste! Mas é claro que a minha filha não anda sempre aos gritos e não é em todo o lugar, óbvio que há lugares em que eu digo para ela se acalmar, que lhe chamo à atenção e apesar de fazer uma carinha de decepcionada ela atende ao que eu lhe peço. Não nos esqueçamos entretanto que se trata de uma menina de dois anos e cinco meses, que está em pleno desenvolvimento e tem muita energia para gastar... mas essa fase vai passar. 

Vai chegar o tempo que vamos desejar que ela diga uma palavra, que ela solte um berro, que ela faça barulho. Haverá um tempo em que vamos suspirar de saudade de ter a casa barulhenta cheia de brinquedos espalhados. Haverá um tempo que vamos esperar ansiosos por ouvir a sua voz através de um telefonema, mais não seja para dizer que está bem mas não tem tempo para falarmos... Haverá um tempo, há um tempo para tudo... 


2 comentários:

  1. Embasbacada!! Sim... criança feliz grita e grita muito! Uma pena que nem todos saibam disso!

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    1. À parte o comentário do pai, que mais tarde se apercebeu e aceitou o meu argumento, há muitas pessoas que esquecem que já foram crianças, ou melhor, esquecem como é ser criança... ou então foram tão, mas tão podadas na infância que não sabem se relacionar com crianças...

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