terça-feira, 25 de setembro de 2018

Desculpa filha, mas eu não posso ficar.

Eu quero, como quero! 
Mas não posso... desculpa!


Desculpa obrigar-te a estar onde não queres... 

Desculpa por não teres direito de escolha. 

Eu queria, acredita que eu queria que pudesses escolher. Sei que escolherias ficar, sei que escolherias que eu ficasse... mas eu não posso ficar. Tu não podes ficar. 

Dói-me cada pedacinho da alma, acredita que dói, toda vez que me dizes que não queres ir para a escola e eu, sem alternativa, digo-te que tens de ir porque a mãe tem que ir trabalhar. Queria que tivesses o mesmo direito que eu tive de, com quatro anos, escolher ficar... mas não podes. Ainda nem três anos tens e já te vês obrigada a aceitar, só porque eu não posso ficar...

Tu bem tentas, à tua maneira. Dia após dia vejo o que tu fazes para eu ficar, para nós ficarmos...

Ainda ontem, quando escondeste o comando da TV, eu sorri, apesar de estar atrasada, apesar de já estar a ficar irritada. Eu entendi porque o fizeste, tu querias que eu ficasse e querias ficar.

Hoje quando não querias tirar o pijama, quando não me deixaste pentear-te o cabelo, quando quiseste ir brincar com a plasticina e pintar os teus desenhos, eu percebi. Juro, eu percebi e quis ficar.

Na semana passada quando fizeste três xixis e um cocó na roupa, eu percebi... porque nem quando deixaste a fralda isto aconteceu...

Quando à hora do almoço ligaram-me para buscar-te porque já tinhas vomitado duas vezes e vomitaste outra vez quando chegamos em casa, apesar de estares bem disposta, sem febre ou sinais de estar doente, eu percebi...

Quando, noite sim noite não, pedes para dormir na minha cama eu deixo.. eu deito-me a teu lado e já não te coloco na tua cama, faço questão que acordes do meu lado, porque eu sei que tu queres ficar...

Quando me pedes colo e me abraças forte à porta da escola, mostrando-me que não queres ir, eu choro por dentro, filha, sabes por quê? Porque eu não posso ficar.

Desculpa, filha! Desculpa obrigar-te a crescer mais rápido do que a natureza exige, mais rápido do que eu própria gostaria... És e para sempre hás de ser o meu "bebé", mas tens de crescer. Eu tento, eu faço tudo para que seja ao teu ritmo, felizmente um dia vais entender que a mãe não pode tudo... mas acredita, a mãe faz tudo o que pode. 

Acho que toda a mãe que é mãe de verdade, toda mãe que sente esse amor que é maior do que nós mesmas, faz tudo o que pode, faz os possíveis e os impossíveis para que seus bebes sejam felizes acima de tudo. Cada uma à sua maneira, cada uma como sabe, mas sempre, sempre o melhor que conseguem apesar de, tal como eu, não poderem ficar.

As pessoas dizem sempre que "as crianças adaptam rápido", disseram-me que tu te adaptarias rápido e eu acredito... mas isso não significa que não sintas. Eu sei que sentes, eu vejo que sentes nos sinais que me envias, apesar de não dizeres nada. Queria poupar-te, queria que tuas dores fossem minhas, mas também não posso... tens que crescer, tens que ganhar asas e não te posso colocar numa redoma de vidro, se não nunca aprenderás a voar...

Por isso filha, sê forte. Sê guerreira desde cedo, porque a vida assim nos obriga, é assim na natureza, a sobrevivência dos mais fortes... e eu sei que és forte, muito mais do que tu mesma poderás um dia pensar. Filha, acredita em mim, mas acima de tudo acredita em ti mesma, porque és e serás sempre capaz de tudo o que quiseres enquanto acreditares, só tens que acreditar. 

Um dia filha, quando já fores crescida, quando tiveres os teus filhos (se decidires ter), vais entender melhor do que nunca tudo o que te digo hoje. Espero que de alguma forma, as coisas sejam diferentes para ti e não  tenhas que dizer o mesmo a eles... espero que possas ficar. 

Espero contudo que me desculpes por eu não poder... saiba que te amei, que te amo com o maior amor do mundo, um amor capaz de tudo por ti... porque um dia eu vou partir e não vou voltar, mesmo que, tal como hoje, meu único e maior desejo seja ficar...

Desculpa, filha, mas eu não poderei... 










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