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terça-feira, 8 de outubro de 2019

Um amigo lá em casa

De uns tempos para cá tenho me dado conta que nós, pais, já não somos suficientes para a Pipoca. Ela precisa de mais. 

Como assim não são suficientes? Poderia se perguntar. 

Mas é mesmo isso. O que venho me apercebendo é que ela chegou numa fase em que já vai conseguindo socializar e não só consegue como precisa dessa socialização. Brincar com a mamã e o papá continua sendo bom, mas não chega. Ela  já tem quase 4 anos e já sente necessidade de brincar com alguém da idade dela, de amigos. 

Ah, mas ela tem amiguinhos na escola, lá ela não brinca com eles? Claro que brinca! Uns mais que outros, mas não chega. Tem também a prima, que é 2 anos e 8 meses mais velha, por quem ela tem uma adoração, mas que está na primária e tem seus próprios amigos, sem contar que nesta fase mais brigam do que brincam, mas também não chega. 

O que ela está sempre a dizer-me é: "mamã, nenhum amigo vem à minha casa brincar comigo"... eu pergunto-lhe sempre: "que amigo gostavas que viesse cá em casa"? Ela responde logo uma amiga ou outra e eu digo-lhe que logo falamos com a mamã dessa amiga. E falo. Já falei em combinarmos um dia a tarde, não precisa ser muito tempo, mas como deve imaginar, com a vida corrida que temos hoje em dia, a resposta é sempre "temos que combinar"... 

E como é óbvio, nunca se combina! 

De certa forma fico um bocado triste por não conseguir levar uma amiguinha lá à casa para ela brincar. No fundo, acho que ela quer mostrar o cantinho dela, os brinquedos dela. Cada vez que ela fala no assunto eu já nem sei o que lhe responder mais, porque ela já raciocina o suficiente para me dizer: "tu falas sempre isso". Pois é. 

Nós continuamos brincando de bonecas, de cozinha, de dentista e médico, mas confesso que já não consigo acompanhá-la. Uma coisa é brincar com bebés, que chega amontoar uns blocos para eles deitarem abaixo, ou abanar um boneco à sua frente fazendo barulhos... outra coisa é brinca com uma criança cheia de imaginação, que quer que falemos e tenhamos as reações que ela imagina e espera. Não chega!

Há uns dias atrás recebemos uma visita inesperada do Diego, um amiguinho da creche que ela não via já há alguns meses, mas de quem nunca esquece. Só eu sei a felicidade que vi naqueles olhinhos quando eu disse que o amigo viria a nossa casa. Ela saltava, ela corria, ela me abraçava... ficou completamente extasiada com a ideia de ter um amigo a ir lá a casa para brincar com ela. Foi só um bocadinho, mas foi o suficiente para ela ficar muito feliz e só tenho a agradecer à mamã do Diego por ter lhe dedicado este tempo. Obrigada, de coração.


Estamos em tempos bem diferentes do que eu cresci, tempo em que ambos os pais trabalham fora e quando não se trabalha no fim de semana, tem-se sempre coisas para fazer. Eu entendo isso, eu sei isso. No meu tempo de criança, na maioria das famílias só o pai trabalhava fora ou quando a mãe também trabalhava, tinha os avós para tomar conta dos filhos. Tínhamos como amigos os vizinhos da avó, os nossos vizinhos, brincávamos na rua com crianças que nem sabíamos o nome e muitas vezes os levávamos para brincar na nossa casa; nossa mãe fazia um lanche, ou a mãe dos amigos quando lá íamos. Hoje sou incapaz de deixar minha filha na rua, muito menos com crianças que não conheço sem que eu esteja a ver. Na idade da Pipoca eu já brincava na rua e tenho amizades deste tempo que ainda duram. Hoje, é impensável, infelizmente.

Eu tento levá-la a todas as festas de anos a que ela é convidada. Além de acreditar que quem convida vai ficar extremamente feliz, senão não convidava, a minha Pipoca tem oportunidade de brincar com os amigos fora da escola. De certa forma é como transportar a amizade para um ambiente neutro, quebrando aquela associação de ter amigos só na escola, que no fundo acho que é o que ela quer quando pede para um amigo ir lá à casa.

Enfim! É só um desabafo de uma mãe que está aprendendo a lidar com a frustração da filha, aprendendo ao tentar ensinar que nem sempre é possível termos o que queremos e que nós adultos corremos muito e muitas vezes não conseguimos satisfazer as necessidades dos nossos filhos, muito menos quando também dependemos de outras pessoas...

E você? Já se deu conta que não é suficiente? 



sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Será que sou eu?


Ontem senti-me completamente frustrada...

Há muito tempo que a Pipoca demonstra gostar de dançar, principalmente "bailarinas" e há uns meses atrás tentei levá-la para uma aula experimental de balé. Ela inicialmente chorou queixando-se que estava de calças e não podia dançar "bailarina" sem saia e o pai que tinha ido ter conosco foi à casa buscar uma. Vestiu a saia e tentamos que ela entrasse na sala para pelo menos observar a aula, sem sucesso. Foi um chororô, um misto de vergonha com receio, não sei bem, principalmente quando a professora a pegou ao colo, numa tentativa de aproximá-la. Fomos para casa e pensei: ainda é cedo, mais tarde tentamos outra vez. Verdade que ainda insisti para voltarmos lá na mesma semana, mas ela se recusou.

Na semana passada a tia levou-a para fazer umas aulas experimentais de dança onde a prima faz, na quinta foi tipo hip-hop, danças contemporâneas e na terça foi tipo balé, danças clássicas. Na terça nem era para voltar, pois eu perguntei se tinha gostado e ela disse que não. Mas, como a prima ia, ela quis ir. Eu fui buscá-la e conversei com a professora que disse que as aulas correram super bem, que ela fez tudo direitinho, até coisas difíceis para a idade dela e que ela até estava "puxando" pela prima. Fiquei toda contente e entusiasmada. Combinei com a professora voltar ontem (quinta) para levá-la à aula e formalizar a inscrição.

Saí do trabalho mais cedo, o pai já a tinha apanhado na escola pelo que fui buscá-la à casa e, juntamente com a prima, fui levar à dança. Quando cheguei para apanhá-la, já estava com as suas saias de "bailarina" e mostrava-se entusiasmada por ir a dança. Já na sala da dança, tirei-lhe os sapatos dela e da prima e disse para irem ter com a professora. Olha, começam as duas a chorar e se recusaram terminantemente a ir para a aula. Tem lá dentro uma salinha de brinquedos e queriam porque queriam ficar a brincar. Eu, com a minha calma, ainda lhe disse: filha, podem brincar quando acabar a aula, a mãe depois espera que brinquem... mas nada! A Pipoca ainda se acalmou e parou de chorar, mas a prima, levou-se a aula toda parada, no canto a olhar para mim e a chorar. Não percebi nada! 

Fiquei a pensar: será que sou eu? O problema sou eu? Ainda insisti para a prima ir, porque assim a Pipoca também ia, mas ela fincou o pé, se recusou e ficou ali, chorando. Nem sei explicar a frustração que tomou conta de mim. Aquilo não foi normal... a Pipoca chorar eu até entendo, é uma coisa nova para ela, com pessoas estranhas e como todos sabem, crianças com as mães se comportam de forma diferente. Por isso mesmo, ainda saí da sala, fui formalizar a inscrição e esperava voltar e ver as duas fazendo a aula, mas não... voltei estavam as duas sentadas ao fundo da sala, olhando. Ainda voltei a insistir e a prima começou outra vez a chorar. Deu-me uma irritação, um sentimento tão ruim, foi tão frustrante! Saí de imediato de lá com elas, não esperei sequer a aula acabar. Fiquei mesmo muito chateada... 

Tive uma atitude que em outro momento talvez não teria, que foi levar a prima à mãe e a Pipoca imediatamente para a casa. Fiquei triste o resto da noite... a Pipoca notou. Vinha me dar "abracinhos" como dizia ela, para eu não ficar "com aquela cara". Mas eu não conseguia me sentir de outra forma... a culpa não é dela, nem da prima. A culpa é minha... eu adulta, que não soube lidar com o sentimento que estava a sentir. Só me passava pela cabeça: o problema sou eu, porque com a tia ela vai e fica. O problema sou eu? Será?

A verdade é que hoje o sentimento já me passou. Não sei o que aconteceu com a prima para se comportar daquela forma, também já não interessa. No fundo estou arrependida de ter  formalizado a inscrição da Pipoca. Por um lado eu o fiz porque pensei que ela estava a gostar e que com a prima, podia ser que se afeiçoasse a professora e às colegas e continuasse. Por outro lado, o pai disse, e com razão, que esse tipo de coisas não pode ser associado a alguém. Ela não pode querer ir à dança só porque a prima vai, mas sim porque gosta e apesar de eu saber que ela gosta de dançar, quando lhe pergunto se gosta ela diz que não. Agora não sei se anulo ou espero por terça-feira para a próxima aula...

Acho que no fundo a minha frustração tem a ver com a mania que a gente tem de comparar nossos filhos com os dos outros... pensei eu: estão lá duas colegas dela da escola, se elas com a mesma idade fazem a aula, ela também consegue e pode fazer. Há amiguinhas que fazem karaté, há quem faça balet, há quem faça natação, há quem faça outras coisas e ela não faz nada... mas não há problema nenhum! É isso que tenho que por na minha cabeça. 

Ela não é as amigas! Ela é única. Há de chegar o dia que provavelmente ela me vai pedir para fazer algo. Algo sem mim, algo sem o pai, algo sem a prima, algo sem amigas, ela sozinha, porque quer, porque gosta... e o que eu quero não interessa!

Só queria, mesmo sabendo isto tudo, que no fundo não fosse eu! Que não fosse por ter sido eu a levar que elas não quiseram fazer a aula... queria ter a certeza que o problema não fui eu... 


Socorro, que bagunça!

Hoje venho aqui falar de um assunto muito delicado: bagunça. Yeahhh! Só que não! Desde quando bagunça é assunto delicado, né!  Então vamos l...

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