Impressionante como de um momento para o outro o raciocínio das crianças se desenvolvem, mas não só, porque o vocabulário vai acompanhando. As últimas pérolas da Pipoca têm-me deixado sem argumentos e às vezes não sei o que lhe diga.
Perto do meu trabalho tem um desenho numa parede. O desenho, para quem o compreende até é meio obsceno, mas ela o vê como um pai e um filho, sendo que o pai está zangado e o filho tem o pé em cima da mesa. Toda vez que passamos por ali ela faz a mesma pergunta:
_Por que ele está com o pé em cima da mesa?
_Por que o pai dele está zangado? Pois bem, tendo em conta que estamos sempre a dizer-lhe que não devemos colocar os pés em cima da mesa, a pergunta até é bem pertinente e eu aproveito para reforçar o que estamos sempre a dizer:
_Ele está a portar-se mal filha, e o papai dele está zangado porque já lhe pediu para não por os pés em cima da mesa.
Ela aceitava bem este argumento, até uns dias atrás, que ela repetiu a pergunta e eu a resposta, mas ela não aceitou o que eu lhe disse:
_Mamã, não podes dizer isso! Por que estás a dizer isso?
_Isso o quê, filha?
_Isso tudo! Isto és tu que estás a dizer, o desenho não fala!
_Não podes dizer isso, ok?
Eu não soube o que dizer e apenas respondi Ok.
Ontem à noite, tal estávamos a ler uma história e qual todas as noites, ela fazia perguntas sobre o que via ou o que não via nos desenhos:
_Tem, filha!
_Onde estão os pais dela?
_Os pais foram à água e ela ficou a brincar na areia, porque tem medo das ondas.
_Mas onde estão?
Eu voltei a repetir, mas ela não se convenceu, porque em nenhum momento, apesar de mencionar que ela e a família vão à praia, não se vê os pais nos desenhos. Então virou para mim e disse:
_Não é nada! Ela não tem pais, os pais dela morreram! (muito zangada)
_Oh mamã! Não podes dizer isso! A história não fala! Tens que parar de dizer essas coisas! Estás a ver, a história não fala!
_A história fala, filha, todos os livros falam, é como contam as histórias.
_Não falam nada! Não podes dizer isso!
Enfim, eu respondi: está bem filha, um dia vais entender... e continuei e história, com mais 1001 perguntas que eu já não sabia se respondia o que era ou se o que ela queria ouvir...
Ao mesmo tempo que fico maravilhada com as observações dela, a forma como ela vê a história e os desenhos, as perguntas curiosas sobre detalhes que para mim, adulta, são tão óbvios e que me passam ao lado, fico pasma com o raciocínio, com os argumentos, com a forma assertiva com que ela fala.
Eu gosto que ela fale. Eu gosto que ela fale tudo o que pensa, mesmo que eu não goste de ouvir. E não, eu não a "mando" calar ou parar de dizer seja o que for, eu a deixo falar e ouço. É importante incentivarmos as crianças a se expressarem, é importante deixarmos que falem sobre o que sentem. Se lhes dissermos que não podem falar assim com os pais e nos zangarmos, vamos obrigá-los a guardarem o que sentem e aos poucos, simplesmente vão se sentir tão reprimidos a ponto de deixarem de falar. Claro que chegará o momento que teremos que ensinar "como" falar, ensinar a exprimirem o que sentem, seja raiva, frustração, alegria, amor, sempre com respeito, sem gritos, sem palavrões.
Nesta fase o que vejo é a formação da personalidade dela, forte, autoconfiante e dona de si e de suas convicções. É aí que vejo também que estou no caminho que quero seguir. Não quero que minha filha diga sim querendo dizer não, apenas para não deixar alguém triste, ou zangado. Quero que ela seja convicta de si e pense sempre na alternativa que ela acredite que vai lhe fazer bem, para não ser uma adulta frustrada, que tem "medo" de dizer não. Claro que em alguns momentos ela será "forçada" pela vida a fazer o que não quer, todos nós passamos por isso nem que seja uma vez. Mas ao menos ela vai crescer sabendo que tem uma escolha, que a resposta não tem que ser sempre sim só porque um adulto "mandou". Quem diz adulto diz um amigo, um parente, um irmão, ou mesmo nós, pais.
Entretanto, neste momento, só sei que eu não posso dizer isso! Hahha!
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